O Blog:

Não importa se fútil ou cult, aqui tem o que agrada, desperta curiosidade, riso e coisas assim. Sem rótulo e sem pudor, seja fult com a gente!

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Nicholas Gunty


Entro no meu twitter e percebo a presença de um novo follower. Nicholas Gunty. Minha primeira reação, claro, foi me perguntar “quem é esse ser?”. Abri seu perfil e li sua biografia, que traduzi livremente, “Músico indie folk de South Bend, Indiana, influenciado por Fleet Foxes, Iron & Wine, Paul Simon, Andrew Bird e Good Old War”.

Quando li isso não pude deixar de ouvir, até porque das seis bandas/artistas citados cinco são bandas/artistas que gosto muito, e isso porque nunca cheguei a ouvir Good Old War. Entrei na página do MySpace dele e pus-me a ouvir.

A música é caracterizada como o típico folk americano, voz e violão, com eventuais entradas de violinos, pianos e bandolins. Porém o que chama bastante atenção é a voz suave e agradável com a qual canta, lembrando algumas vezes Joshua Radin, mas ainda mantendo sua identidade.

Possui apenas um álbum, homônimo, gravado, produzido e editado por ele mesmo. O álbum possui doze maravilhosas músicas, maioria disponíveis para serem ouvidas em seu MySpace e outras apenas disponíveis para compra no iTunes.

Como todo bom folk, tem tom um tanto triste, solitário, lembrando interiores remotos e campos vastos, algo para se ouvir em momentos específicos para não correr o risco de não entender sua genialidade. Bem, mas mesmo fora destes momentos ainda é uma ótima lista de reprodução.

A dor e a ternura

O vídeo abaixo é uma preciosidade comovente. Dor e ternura na voz e na imagem de Dona Canô, essa mulher abençoada que deu vida a Maria Bethânia. ( E a Caetano também, mas especialmente a Bê, tá!? haha) Brincadeiras a parte, assistam porque vale a pena.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Letuce



Duas vozes, um casal. Sempre comparados á Rita Lee e Roberto Carvalho em toda a sua doçura excêntrica. Versão de Caso Sério em Francês, em Ballet da Centopéia cita verso de Cabecinha no Ombro (1958), um clássico sertanejo de autoria de Paulo Borges. Voz mansa, por vezes sonolenta como seus próprios olhos, Letícia Novas conduz as canções. Lucas Vasconcellos aparece de forma sutil no som, voz tímida, mas em Potência se faz mais presente. Clipes e capa caseiros, piscinas, girafas, dois, sempre dois, praia, areia, sol. Um ar meio bossa nova, jazz e algo bem caseiro, fim de tarde com cor de flamboyan. Amor, eles cantam sobre o amor, deles, dos outros, do agora e do amanhã. Sim, vale a pena.



http://www.myspace.com/letuceletuce
http://twitter.com/letuceletuce
http://www.lastfm.com.br/music/Letuce

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Achados os perdidos – Parte II

No masculino da música brasileira, como já disse aqui no Varal, Vinicius Calderoni foi meu grande achado de 2010. Compositor e cantor moderno, de musicalidade contagiante, antenado em nas diferentes linguagens, enfim, um cara que realmente merece atenção e está na ponta do movimento musical contemporâneo.

Pois bem, hoje venho apresentar meu grande achado no lado feminino da música: Áurea Martins. A intérprete contrapõe quase que totalmente ao Calderoni: ela é clássica, daquelas tipicamente clássicas. Excelente e intensa, mas também obscura, melancólica e rasgante. Penso no tempo que perdi por não conhecê-la antes


Hoje com 70 anos e mais de 50 de carreira, ainda circula pelo circuito undergound de bares e clubes do Rio de Janeiro, sua cidade natal. Seu álbum Até Sangrar, de 2008, faz jus ao nome que tem. A cantora dá às composições de Lupcínio Rodrigues o peso certeiro que deve ter, e até uma composição sutil de Herbert Vianna e Paula Toller (Nada Por Mim) ganha peso e intensidade na sua voz marcante. É uma grande viagem ao tempo. Não chega a ser um álbum de fossa, mas certamente é algo para se ouvir sozinho em alguma noite qualquer. Embriagando-se de álcool ou de mágoa.

Esse álbum necessário você encontra AQUI.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Dedo de prosa



Bem, como todos sabem, eu e o Darlan (mais conhecido como Darlanhouse pelo twitter) somos os fundadores do Varal Fult. Foram muitas matérias, entrevistas, vídeos, novidades e raridades. Resolvemos que pra dar uma melhorada no nosso espaço vamos convidar outras pessoas para fazer um post-teste. Isso consiste em um post comum, nos moldes de texto+vídeo+imagem+link's+algumacoisaqueoautorqueira. Bem, depois de todos os convidados postarem vamos fazer uma pequena votação com direito a coquetel e tudo mais. Aí, teremos o novo integrante desse humilde espaço. Em breve vem post-teste aí, fiquem de olho.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Luísa Maita

A primeira vez que a vi foi por acaso em algum vídeo do Youtube cantando com a Mariana Aydar. O vídeo não era de muita qualidade, então assisti aquele dueto sem muito crédito, sem saber bem quem era ali ao lado da Mariana cantando uma das minhas músicas preferidas, Beleza. Pois sim, era Luísa Maita, compositora de Beleza, gravada pela Mariana.

Tempo passou e acabei acabei esquecendo do dueto, mas ainda bem que via Twitter alguém chegou para me perguntar se eu conhecia Luísa Maita. O nome já não me era estranho, fui pesquisar e daí me vieram dois sentimentos: arrependimento e surpresa. O primeiro por não ter prestado atenção nessa moça antes, o segundo porque ela é ótima!

Levando em conta que está no seu primeiro trabalho solo, o álbum Lero-Lero (2010), pode-se dizer que é impecável. Quase todo autoral, traz músicas leves, independente de serem mais serenas ou agitadas, todas as melodias são muito agradáveis e as letras a gente canta com um sorrisinho bom. Sem definir estilo musical pra isso e praquilo, Luísa Maita faz um som que o mais apropriado é chamar de "delicioso".

Tracklist:
1. Lero-Lero (Luísa Maita) | 4’43”
2. Alento (Luísa Maita) | 3’54”
3. Aí vem ele… (Luísa Maita) | 4’13”
4. Desencabulada (Luis Felipe Gama e Rodrigo Campos) | 3’01”
5. Fulaninha (Luísa Maita) | 3’36”
7. Maria e Moleque (Rodrigo Campos) | 4’43”
8. Anunciou (Luísa Maita) | 3’15”
9. Um vento bom (Luísa Maita)| 3’49”
10. Alívio (Luísa Maita) | 3’31”
11. Amor e Paz (Luísa Maita) | 2’44”

Todas ótimas, mas eu destaco especialmente Alento, Desencabulada e Fulaninha. Disponível AQUI.

Outros Links:
- Site Oficial
- Myspace
- LastFM

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Rock + RAP = Samba!


O que acontece quando se juntam duas coisas que você não gosta num mesmo trabalho? As expectativas são as piores, pelo óbvio. Mas não, eu estava errado. Nunca gostei de Bezerra da Silva, nunca gostei de Marcelo D2.

Contudo, nos últimos anos venho percebendo a transição de D2 para o mundo do samba, deixando para trás os trejeitos que não me agradavam na sua época à frente Planet Hemp. Depois de passar entre o rock e o RAP, as mudanças no artista aconteceram de maneira bastante sutil e natural, como deve ser. Não temos um sambista fabricado por interesse mercadológico, é uma musicalidade que flui de modo muito agradável.

Para coroar essa nova identidade artística que se constituiu, Marcelo D2 lançou recentemente um CD com canções do repertório de Bezerra da Silva. O resultado é sensacional! A qualidade musical do trabalho chama atenção, mérito do D2 e especialmente do produtor e percursionista Leandro Sapucahy, que sempre apresenta trabalhos de qualidade impecável, como o Samba Meu, de Maria Rita.

O álbum conta com 14 faixas que mesclam crítica social, ironia e diversão. É um CD leve, daqueles pra levantar o astral tocando no churrasco de domingo, ainda que tenha requinte nos arranjos. O destaque do álbum vai para a música A Semente. Vale a pena ouvir não só essa, mas todo o álbum. Vida longa ao Marcelo D2 sambista!

Músicas:

01- Se não fosse o samba
02- Partideiro sem nó na garganta
03- A semente
04- A necessidade
05- Bicho feroz
06- Quem usa antena é televisão
07- Meu bom juiz
08- Malandro rife
09- Pega eu
10- Malandragem dá um tempo
11- Minha sogra parece sapatão
12- Na aba
13- Saudação às favelas
14- Pai véio

Disponível AQUI ou AQUI.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Cisne Negro (2010)

Nina é bailarina de uma companhia de balé de Nova York. Sua vida, como a de todos nessa profissão, é inteiramente consumida pela dança. Ela mora com a mãe, Erica, bailarina aposentada que incentiva a ambição profissional da filha. O diretor artístico da companhia, Thomas Leroy, decide substituir a primeira bailarina, Beth MacIntyre, na apresentação de abertura da temporada, O Lago dos Cisnes, e Nina é sua primeira escolha. Mas surge uma concorrente: a nova bailarina, Lily, que deixa Leroy impressionado.

O Lago dos Cisnes requer uma bailarina capaz de interpretar tanto o Cisne Branco com inocência e graça, quanto o Cisne Negro, que representa malícia e sensualidade.

Nina se encaixa perfeitamente no papel do Cisne Branco, porém Lily é a própria personificação do Cisne Negro. As duas desenvolvem uma amizade conflituosa, repleta de rivalidade, e Nina começa a entrar em contato com seu lado mais sombrio, com uma inconsequência que ameaça destrui-la.

Fonte: Cinema10

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Entrevista com Validuaté!

Há algum tempo atrás eu apresentei a banda Validuaté aqui no blog. Era um tempo de euforia pela descoberta. Apresentei a banda pra muita gente, fico feliz que muitos tenham gostado e cantado a plenos pulmões Eu Só Quero Acabar Com Você (risos). Tempos depois, volto a falar da banda para anunciar que finalmente, com todo mérito da Diana por ter conseguido, entrevistamos os caras da Validuaté. O resultado é extenso, mas vale a pena saber um pouco mais da banda, das influências e do som feito por eles. Feita por mim e pela Diana, o resultado está logo abaixo. Agradecemos desde já a eles pela disposição e gentileza. Bora lá!
Som diferente, interessante e inteligente que brota do Piauí, uma região onde as a grande massa de ouvintes não espera que vá sair um grupo desses. Talvez isso possa parecer preconceito, ou até mesmo ser, mas realmente as pessoas em geral não tem muitas informações sobre as novidades musicais de uma região tão esquecida do nosso país. Como vocês lidam com esse olhar? Consideram o som de vocês regional?
Quaresma – Realmente, ainda não temos uma referência musical no âmbito nacional que possa gerar essa expectativa. Talvez a memória nacional recupere figuras piauienses mais ligadas à literatura como Torquato Neto, que também atuava na música e no cinema, Assis Brasil, e Da Costa e Silva. Mas na música mesmo não há quem relacione nosso som, ou o que tem sido feito por aqui, a qualquer outro trabalho piauiense reconhecido Brasil a fora. De alguma maneira, nos anima chegar com alguma novidade, mesmo que tardiamente, embora eu não creia que seja tarde, já que penso nossa música como fruto dos dias de hoje. É resultado de nossas experiências com o que tem sido produzido no Brasil, principalmente, dos anos 80 pra cá, e também de algo de tempos mais remotos. Quanto ao termo “regional”, às vezes soa um tanto pejorativo quando generaliza demais. O que há de regionalismo na música que fazemos são as expressões que utilizamos nos textos, e remetem a situações do dia-a-dia. É regional porque nasce aqui, e de alguma maneira representa um pouco a produção atual, mas não é regional no sentido direto de justaposição temática ou alegórica de elementos que compõem a imagem do nordestino para o restante do país.

Thiago E – Ah, Diana, em nome de todos da Validuaté, primeiro digo obrigados... Pois é. Realmente, muitas e várias e incontáveis pessoas preconceituosas pelo Brasil não esperam grandes coisas do Piauí. Isso é tristíssimo. Até mesmo muitos dos habitantes deste estado duvidam do próprio talento. Acontece bastante de aparecer um trabalho artístico bem feito, bem produzido, esmerado e alguém dizer “olha que massa! nem parece que é daqui”. Repito: isso é soturnamente tristíssimo. E pouca gente percebe que essa atitude é um problema cultural. Quando digo “é um problema cultural” não estou falando de “falta de cultura” – absolutamente ninguém pode dizer isso do Piauí: somos muito ricos culturalmente. Quando digo “é um problema cultural”, falo sobre a falta de hábito de se interessar na produção cultural local. É um problema na educação e vem de longa e antiga data. Quem trabalha com música autoral em Teresina tem enormes dificuldades financeiras... E pouco, ou quase nada, consegue divulgar seu trabalho. E assim, a gente fecha um trágico ciclo: 1º) grande parte do público, por questões históricas e culturais, pouco se interessa pela música local; 2º) A maioria das casas de show, “prevendo” que não vão ter platéia suficiente para o seu almejado retorno financeiro, não contrata bandas locais; 3º) E o público, por ter pouquíssimo, ou nenhum, contato com o trabalho autoral de Teresina, não vai gostar do que não conhece. Mudar isso vai ser demorado e complicado. Eu reafirmo a expressão “música autoral” porque aqui, devido a esses problemas, as bandas cover’s são super valorizadas, logo, fazer música autoral é, antes de tudo, uma militância, uma postura política! Sem falar das rádios: contam-se nos dedos de uma mão as que nos apóiam. A Rádio pública Cultura FM 107.9 faz um trabalho importantíssimo na divulgação artística daqui. O pessoal da Cultura FM é bom e merece muitos elogios e todo o reconhecimento e respeito. E quanto a sermos “regionais” ou não... é bastante simples. O rock é a coluna das nossas músicas. Pelo menos por enquanto, sei lá, tudo pode mudar. Misturamos com samba, reggae, um pouquinho de baião... mas o eixo, o cerne, o cimento é o rock. O problema é que o termo “regional” ficou preconceituosamente ligado apenas ao nordeste. Se um grupo põe qualquer elemento de baião ou “forró” numa música, ele imediatamente é rotulado “regional”. Mas nunca vi um paulista misturar rock e xaxado e ser chamado de “regional”. Então é aquela história: todo rótulo é opressivo. Às vezes também ligam o termo “regional” a uma certa tentativa de “pureza” na música, de tentar deixar “intacta” alguma manifestação artística... A Validuaté nunca se preocupou com isso. E nem acho que isso exista. Na “mundo multidão mil”, primeira faixa do nosso disco “Pelos pátios partidos em festa”, é dito “os movimentos vários das culturas / porque deus é movimento e mistura”. Ninguém da Validuaté se considera “regional” nessa acepção. O Vazin, nosso guitarrista e geógrafo, diz que “regional” é quem vem de alguma região. Nesse sentido, somos regionais. Somos de um vale do até...

A Internet tem aberto muitas portas para a apresentação de bandas novas (ou até mesmo as que estão na estrada há algum tempo). Qual a pretensão do grupo quanto ao público? Grande mídia, meios de comunicação em massa ou grupos mais seletos?
Quaresma – Nossa intenção é atingir um público cada vez maior, fazer nossa música ser conhecida, e dar oportunidade às pessoas de dizer se gostam ou não do que fazemos. O bom de sermos independentes é a liberdade que temos de criar um trabalho do nosso jeito, sem pré-moldes impostos por quem quer que seja. Se houver oportunidade para mostrar esse trabalho para a grande mídia, chegaremos puros como nascemos. Há planos de organizarmos pequenas turnês para poder tocar para um público que nos conhece apenas pela Internet.

Thiago E – Nós tentamos explorar bem a Internet. Podemos ser encontrados no Myspace, no palco mp3, no twitter, na comunidade do orkut, no nosso blog, no nosso site, no youtube... e, ainda bem, em vários espaços de outras pessoas que gostam e acompanham a produção da banda. Nós estamos nos organizando pra fazer mais viagens e tentar divulgar a Validuaté num âmbito nacional. Onde pudermos nos apresentar de uma maneira interessante, estaremos lá. Não gostamos dessa coisa de “grupos seletos”. Pra gente isso não existe. Isso seria o próprio artista se mistificar, se achar superior a alguém. Isso é besteira. John Well, Júnior, Wagner, Quaresma, Vazin fazem a Validuaté ter uma força agregadora que é fundamental pra todos nós. Perder isso seria perder tudo.

Músicas como Ela é, Plaina Maravalha, Eu só quero acabar com você, Essa moça, Eu preciso é de você (regravação da Jovem Guarda) são letras que visões diferentes sobre as mulheres. As primeiras mostram o lado "devorador de corações" que as mulheres podem ter, as últimas demonstram como os homens podem se perder e depender delas. Como vocês realmente lidam com esse universo e como instiga suas criações musicais?
Thiago E – A gente lida tranqüilamente... A banda não privilegia esse tema, isto é: não temos mais cuidado ou menos atenção quando estamos fazendo uma canção sobre “uma mulher” do que quando estamos compondo uma canção sobre outro assunto – “o céu”, “um peixe”, “a orelha da Maria Bethânia”, “o amor”, “o mar”... Nos empolgamos com o arranjo bem feito. Não temos essa de “um tema especial”. Um dos “baratos” da arte é tentarmos tornar qualquer assunto especial. Seja na música, na pintura, na poesia, na prosa... a arte tá aí pra isso: pra instigar um desafio na cabeça de quem vê e de quem cria. Alguém pode querer fazer uma canção sobre o amor e cantar “o amor que sinto é uma lâmpada fluorescente...”, aí o compositor tem de se virar pra dizer por que o amor é uma lâmpada fluorescente! (risos). O Torquato Neto diz “é inventar dificuldades pelo menos maiores”. (risos). Obviamente a figura feminina nos encanta. É só observar as duas capas dos nossos dois discos. O “pelos pátios partidos em festa” e o “alegria girar” trazem uma mulher em cada imagem. Porém, quando a mulher é uma personagem na música, trato com o mesmo alumbramento de quem percebe o mar pela primeira vez e diz “o mar rumina a terra o tempo todo”. Pra mim não é fácil, não é comum compor canção tratando do envolvimento amoroso, de romance... Acabo tratando mais de “coisas” ou histórias mais irônicas. É algo normal no meu comportamento. Já o Quaresma faz músicas sobre relacionamentos com uma naturalidade e um aprumo que invejo. O Quaresma é bom nisso. Ainda bem que ele tá por aqui.

Quaresma – Criar canções para mim é um exercício de representação da realidade, mesmo que seja uma realidade reinventada, ou pura ficção. A música pop, de modo geral, é construída em torno de algumas temáticas recorrentes: paixão/amor, abandono, solidão, admiração, desejo, etc. A maneira como se utiliza uma temática ou outra pode gerar as mais diversas impressões no público, das quais a surpresa é sempre a melhor. As nossas “canções de amor” não dizem “eu te amo”. É um exercício muito prazeroso, principalmente quando temos uma aceitação tão boa do público.

O cenário independente vem crescendo de forma meteórica e diversificada. Como lidam com esse mercado? Quais nomes podem nos indicar? Com quais gostaria de tocar, compor? E até mesmo os mais famosos, quais lhe enchem os olhos?
Quaresma – É um mercado que parece muito convidativo e desafiador. Parece haver lugar para todos quando vemos as ferramentas à nossa disposição. Ao mesmo tempo parece que fica muito a cargo de cada um. Algo do tipo “às próprias custas s/a”, e atuar em diferentes setores da cadeia produtiva da música se torna algo fundamental para compreender o funcionamento do mercado de antes, e do que tempos agora. A Internet é nosso grande aliado na divulgação do trabalho da banda bem como na formação de nosso público Brasil afora. Um dos melhores exemplos de banda que tira todo o proveito da Internet para divulgação e interação com o público é a brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. Considero os meninos do Móveis um modelo de organização. Creio que cada músico da banda até imagine grandes artistas participando de alguma gravação ou show nosso. Acho que isso tem mais a ver com a essência de cada música. Por afinidade e admiração, seria uma honra poder tocar/compor algo com Céu, Nação Zumbi, Arnaldo Antunes, Tom Zé, André Abujamra, Moska, Adriana Calcanhoto, Lenine, Vitor Ramil etc.

Thiago E – Olha, somos uma banda como tantas milhares de outras bandas pelo Brasil: adoramos o que fazemos e buscamos nos manter apresentando nosso trabalho. Esse é o objetivo de milhares de bandas. O mercado é inflacionado e não há espaço pra todo mundo. A verdade é essa. Não cultivamos ilusões. Eu até brinco parafraseando uma frase do Stanislaw Ponte Preta: “Validuaté: despontando para o anonimato” (risos). Não sabemos se conseguiremos tocar, gravar mais discos e nos manter com a música... Ou se seremos mais um grupo sufocado pela dificuldade e pela falta de recursos. Tudo é incerto. O que sabemos é que viver de música autoral por aqui é fazer um milagre. Como não temos o dom de fazer milagre, resta-nos tentar também outras paisagens. É como diz outra do Stanislaw “quem quer ser artista tem de carregar o circo nas costas”. Várias bandas e músicos daqui têm um trabalho autoral interessante: Clínica Tobias Blues, Obtus, Roque Moreira, Fragmentos de Metrópole, Eucapiau, Teófilo, Eita Piula, Batuque Elétrico, Captamata, Maykel Francis, Joniel Veras... entre outros grupos e músicos. As produções estão acontecendo... Como todo mundo, a gente da Validuaté admira muitos artistas. Também tocamos algumas músicas de quem admiramos: Tom Zé, André Abujamra, Arnaldo Antunes, Márcio Greyck... Se, no futuro, formos parceiros de um deles já vai tá bom demais! Mas já conseguimos alguns encontros maravilhosos. No disco “Alegria Girar”, contamos com a participação do poeta Ferreira Gullar, do cantor, compositor e ator Lirinha, do ator e dublador Isaac Bardavid e do ator, cantor e compositor Zéu Britto. Pra gente foi-é-e-será uma felicidade!

Dois CD's, alguns clipes soltos na Internet e um bom número de admiradores fiéis, planos pra um próximo projeto? Tocar nas grandes capitais?
Quaresma - Está em nossos planos, antes de gravarmos um disco que encerra a trilogia doa álbuns em estúdio, produzir um DVD com repertório dos dois primeiros trabalhos e mais algumas músicas inéditas. Além de participações especiais. Paralelo a isso, vamos organizar pequenas temporadas por outras capitais e outras regiões do país. Alimentar nosso público que nos acompanha tão somente pela Internet. Tudo com calma e planejamento.

Vemos em comunidades do orkut e do Last.FM que grande parte do público da banda é feminino e se derretem todas pelas músicas e por vocês. Pois então, há assédio nos shows? Como os compromissados lidam?
Thiago E – Isso é tranqüilo. A maioria da banda é compromissada e há respeito. Obviamente existe aquela coisa do fetiche do palco e tal, mas não dou importância pra isso. Aliás, qualquer pessoa sã que nos observe concluirá que não temos atrativos físicos (risos). Vez por outra ouvimos comentários “rapaz, a Validuaté... Ô banda pra ter cabôcos fêi, menino! Os cara até tocam bem... mas, ali, num escapa um!!” (risos!) Pois é. Eu só defendo o Wagner. Só o Wagner é bonito! É nosso Ébano, nosso precioso, nosso Orfeu Negro! (risos!)

Quaresma – (risos, risos) O assédio acontece, mas não é nada escandaloso que nos force a correr pelos corredores ou chegar por alguma porta secreta. Todo o encantamento acontece enquanto estamos sobre o palco. Quando a gente desce, sempre tem alguém que aborda para parabenizar, perguntar por que não tocamos música tal e tal, ou mesmo só para dar um abraço. As respectivas namoradas de cada músico da banda são bem pacientes com esse assédio. Mesmo porque depois do show a gente parece que volta à forma de abóbora (risos).

Para os mais simplistas e/ou para as massas, ao ouvir o som de vocês podem, equivocadamente, achar o som de vocês semelhante demais com outras bandas fora do eixo RJ - MG - SP, como Cordel do Fogo Encantado ou até mesmo Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. Vocês lidam bem com essas comparações ou procuram se afastar cada vez mais delas?
Thiago E – São bandas de um som maravilhoso e as admiro. Realmente, já nos compararam com o Cordel e com o Mundo Livre. Mas, sinceramente, não vejo grandes semelhanças... quase nenhuma. A Validuaté mistura um pouco de poesia às suas práticas e tal... o que poderia nos aproximar do Cordel... Mas o nosso som é muito diferente, trabalhamos com esses elementos de forma diversa. O formato de banda e os timbres não têm nada a ver! Poderiam nos aproximar do Mundo Livre pelo uso do cavaquinho no rock e tal... mas é a mesma razão: misturamos esses elementos de maneira diversificada. Nossa escrita é outra, nossas melodias são outras, nossa pegada é outra. Se nos comparássemos ao Nação Zumbi, eu também só poderia receber como um elogio – eles são fantásticos – mas iria aconselhar essa pessoa a fazer uma avaliação psíquica o quanto antes. Gostaria que as pessoas olhassem pra Validuaté como Validuaté mesmo. Por mais que te comparem com nomes importantes, todo mundo quer ser o que é mesmo.

Comparando Pelos Pátios Partidos em Festa e Alegria Girar, notamos que o segundo é um álbum mais maduro, letras e som mais elaborado, são músicas mais fáceis de ficar na cabeça (até minha mãe anda cantando Eu Só Quero Acabar Com Você, haha), um outro padrão. Pois então, quais experiências a banda acumulou entre um trabalho e outro e o que poderia explicar a mudança?
Thiago E – O “Pelos pátios partidos em festa” é primeiro cd. Tem os atropelos e as delícias de toda primeira vez. Quando o gravamos passamos por uma série de problemas. Alguns por inexperiência e outros de ordem do acaso da vida mesmo, dos rumos que tudo toma. Houve um pouco de pressa, por falta de informação também tivemos pouco cuidado com a captação dos sons na gravação, a escolha do estúdio, os horários no estúdio eram ruins, etc, etc, etc. Uma série de fatores. Hoje, nos incomodamos com a qualidade técnica da gravação... e talvez o público, sem perceber, se incomode também com o áudio... Mas nós adoramos as canções do “Pelos pátios partidos em festa” e temos planos para melhorá-las: quem viver verá (risos). Já o “Alegria girar” foi feito com um cuidado bem maior. Não queríamos repetir as inexperiências do primeiro. Pesquisamos, nos empenhamos e também tivemos a sorte de trabalhar com engenheiro de áudio Mike Soares. Com os toques dele mudamos bastante. O grupo tava coeso. Mas, sobre esse percurso todo, é bom ser observado uma coisa... Não podíamos ficar esperaaando uma situação ideal aparecer. Queríamos fazer, mesmo aos trancos e solavancos... falta de aparato técnico não significará inércia criativa...

Conte-nos um pouco sobre o início da banda e o que cada um trouxe como bagagem para formar esse som tão diverso.
Thiago E – A Validuaté surgiu em 2004 e permanece, praticamente, com a mesma formação: John Well na bateria recarregável de longa duração, Vazin e Júnior nas guitarras, eu toco pandeiro e cavaquinho, Wagner Costa no contrabaixo e Quaresma na voz e instrumentos adicionais. Como todo grupo, temos semelhanças e diferenças e sempre procuramos respeitar os desejos uns dos outros. O John Well tocava música gospel na igreja e dá aulas de bateria; o Vazin participava da cena metal, cantava em coral também e dá aulas de geografia; eu tocava sambas e pagodes naquela onda dos anos 90, depois me interessei por rock, poesia e dou aulas de literatura; o Wagner tocava música instrumental, em banda de pop rock, canta num grupo vocal e faz mestrado em literatura; o Júnior tocava música pop e é gerente do bar Recanto do Caranguejo; o Quaresma sempre cantou, é professor de inglês e português e também é publicitário. Então temos uma diversidade boa. Cada um acrescenta unicamente e funciona. O grupo é bom. O que nos une é nossa tolerância e nosso extraordinário senso de humor. (risos!)

Quaresma – O bacana do grupo é a pré-disposição pela busca do novo, de experimentar os detalhes de algo desconhecido. Antes da Validuaté eu tocava MPB com o Júnior. Aquele repertório de churrascaria mesmo. Mas desde sempre eu quis construir algo novo. Até chegamos a participar de festivais com as músicas que já nasciam naquela época. Isso rendia uma ou duas apresentações por ano com duas ou três músicas próprias. O grupo se chamava Papel di Parede. O difícil era inserir esse novo num contexto em que a música serve para ajudar o pedaço de carne descer com um gole de cerveja. Foi aí que desistimos de tocar música com cheiro de picanha e decidimos criar uma nova história. E nasceu a Validuaté.

Mesmo em letras sérias, é possível notar doses de humor, fazendo com que estas flertem com músicas ditas "bregas", brincando com uma linha bem sutil entre o romântico e o brega. Há receios quanto a isso ou o som que vocês fazem é puramente passional, sem preocupações de estilo?
Thiago E – É como eu disse anteriormente: não nos preocupa evitar nem permanecer. Exploramos o som dito “brega” ou “romântico”. E quando criamos algo nesse gênero, sabemos o que estamos fazendo e quem nos escuta também sabe. É como se fosse um ato, ou uma parte de um espetáculo que tem partes diferentes. Isto é: não ficamos no “brega” o tempo inteiro, todos sabemos que logo acontecerá algo novo. Não há receio quanto a essa classificação. De certa forma, é um momento em que há um sarcasmo de nossa parte com essa enxurrada de músicas, no rádio ou na TV, falando desse amor meloso.

Quaresma – Colocamos muito de paixão também no que fazemos. O traço brega de algumas de nossas músicas passa também pela via do humor. Um dor sofrida que precede o riso de quem vê graça nas relações amorosas.

Vemos ultimamente que as bandas têm uma vida efêmera. GRAM, Los Hermanos, Cordel do Fogo Encantado e tantas outras declararam o fim ou então uma "pausa por tempo indeterminado". Podemos esperar vida longa a Validuaté? Quais são os planos e projetos da banda atualmente?
Thiago E – Olha, eu não sei se essas bandas tiveram essa “vida efêmera”. Não conheço o GRAM. Mas o Cordel do Fogo Encantado e o Los Hermanos duraram o tempo que quiseram durar. Foi algo acordado. Nenhuma tragédia aconteceu pra impedi-los de produzir e tal. Eles podem, inclusive, voltar. Mas, para além das músicas, existe a convivência. E essa, às vezes, é melindrosa: juntar pra dar certo os desejos e os comportamentos de várias pessoas é cheio de pregas e complexo e é preciso sabe-se lá o quê... Quando a gente gosta de um grupo que se acaba, ficamos um pouco pra baixo, etc. Porém é um sentimento pessoal e cabe a cada um resolvê-lo da sua forma. E as pessoas dizem “mas, por quê?” etc. Contudo, quem sabe da pedra é quem calça o sapato. Nesse contexto musical, as coisas duram o que tem de durar. Tem de ser respeitado. Obviamente a Validuaté deseja essa vida longa. Estamos ávidos pra nascer e começar em outros lugares e renascer e recomeçar num devir incessante. Tomara que dê certo. A cada tempo que passa aprumamos artes novas e queremos vivê-las com outras pessoas. Temos o espírito musculoso. Contudo, a vida é essa sucessão de acidentes imprevisíveis. Torço pra que tenhamos acidentes felizes, espantos bons. O Vinícius nos avisa: “que seja infinito enquanto dure”. Tomara que esse “enquanto dure” seja um pedação do tempo.

Quaresma – Vida longa à Validuaté. Cenas dos próximos capítulos: viagens, DVD, viagens, clipes, viagens, 3° CD, clipes, viagens, viagens... fortes abraços para todos e até breve!

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A crise de criatividade da TV brasileira


Eu posso afirmar sem grande culpa que fui uma criança viciada em ver TV. Era um outro tempo, onde a Internet ainda não era popular e o videogame era o grande vilão, tinha tempo controlado para o brinquedo. O refúgio então para as horas à toa era a TV.

Ouvia muita gente vangloriando programas do passado em detrimento das produções televisivas dos anos de 1990 e 2000, mas ali eu encontrava entretenimento que, ainda que sem qualidade, pelo menos era entretenimento. Hoje em dia, nem isso.

Como se não bastassem os problemas com a qualidade da programação, hoje o problema é mais grave e, temo, irreversível. Além da minha paixão pela música e o advento da Internet, talvez isso explique a irrelevância da televisão para mim e outras tantas pessoas.

Nos últimos anos acompanhamos empresas estrangeiras vendendo cada dia mais quadros para as TV’s do Brasil. Não se contentaram em vender coisa pouca assim, logo os magnatas da comunicação do Brasil compraram programas inteiros. Tivemos nosso mundo invadido por aquilo que nunca foi nosso: Big Brother Brasil, Fama, Ídolos, Super Nanny, Esquadrão da Moda, Dança dos Famosos, Qual É O Seu Talento, O Aprendiz, A Liga, CQC, O Formigueiro, Dr. Hollywood, Todos Contra Um, Topa ou Não Topa, Hipertensão e mais uma infinidade de coisas estrangeiras diretamente para nossas casas.

Essas, ao menos, são produções nacionais, mesmo que“importadas”. Há ainda as séries internacionais, que simplesmente são jogadas na nossa tela para preencher a grade de programação dos canais de TV. O SBT é o campeão nesse quesito: não produz praticamente nada, tudo ali é enlatado, indiferente à qualidade.

A Globo, sempre um referencial de excelência no que diz respeito a novelas, atualmente está com dois remakes no ar: Araguaia e Tititi. Curiosamente, a única novela inédita em produção na emissora, Passione, é a mais capenga. Outras produções como SOS Emergência, Força Tarefa e Cinquentinha não trazem nada de novo; são simplesmente adaptações daquilo que o mundo inteiro já viu e se cansou de ver.

Até mesmo aquilo que é nosso, se repete. A cada dois anos vemos Manoel Carlos produzir a mesma historinha insossa que se passa numa ilha de fantasia chamada Leblon. Todo mundo acha lindo ver Helena sofrendo, Zé Mayer comendo e um porteiro feliz. Este, o papel mais cobiçado pelos figurantes do PROJAC.

Nos programas de auditório vespertinos não é difícil ver reformas de casas, gente pobre chorando e crianças falsamente talentosas. Em todos eles, em todas as emissoras. Luciano Huck, Gugu e Celso Portiolli são iguais, a diferença é a empresa onde trabalha. Cada um, de um jeito ou de outro, insistindo no assistencialismo barato. Será que doação de casa popular dá tão audiência assim? Conseqüências do lulismo na sociedade...

Ao que me parece, diretores e roteiristas estão preguiçosos e não aparentam reação. Infelizmente. Temos uma crise de criatividade que, conseqüentemente, agrava a velha crise de qualidade. O público dá sinais que as coisas não andam boas, os magnatas dizem que a culpa é da Internet. Sentar no próprio rabo é uma beleza... enquanto isso, reinam o copismo e o marasmo. Ah, o BBB 11 vem aí!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Bang-bang nacional

Com o download, a pirataria, o DVD, o ato de ir ao Cinema entrou em declínio claro. O Cinema Nacional principalmente é renegado por muitos que da própria nação, dizem que não entendem, que é desnecessário, resumem a ponochanchada. Mas, de uns tempos pra cá tenho notado que ir ao cinema tá quase impraticável nos finais de semana, filas enormes e pra minha grande surpresa as salas lotadas estavam passando Tropa de Elite 2. Pais, filhos, amigos, namorados, todo mundo vibrando com o Capitão Nascimento, mandando a milícia tomar no cú no final do filme e o carinha que vende por 3 pratas o piratão tava vendendo que nem água, mas o cinema permanecia cheio.
É, criaram uma formula pro Cinema de Ação Nacional que tá dando MUITO certo. Hollywood nada, 007 tá irreal demais, o povo quer é ver tiroteio na favela, o pancadão tocando, o tráfico que ele convive, o bang-bang mais nacional possível. Falar da nossa própria ação tá dando certo. Carandiru, Cidade de Deus, Cidade dos Homens, Tropa de Elite 1 e 2 todos eles tem lotado as salas e refletindo a nossa imagem lá fora. E por incrível que pareça, gringo ainda gosta de favela. A lista tá crescendo, logo, logo entra em cartaz Federal e outros do gênero.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Censura!

Eleições, nesse domingo, dia 31 de outubro, aproveite e mate uma bruxa!


sábado, 23 de outubro de 2010

Não Me Abandone Jamais

O filme, baseado no romance homônimo de Kazuo Ishiguro, acompanha a vida de três britânicos desde que são crianças num colégio interno no interior do país.

Lá, a disciplina é rígida. Eles têm que comer bem e se exercitar muito para manter o corpo saudável. São crianças tristes, parecem normais, até que um dia uma professora lhes conta a verdade. Estão sendo criadas apenas para doarem seus órgãos aos que ficam doentes.

Na ficção de Ishiguro, esta foi a saída encontrada pela medicina para aumentar a longevidade: trocar órgãos que não funcionam. A revelação não altera muito a vida dos três, interpretados quando adultos por Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield.

São muito amigos, vivem sempre juntos até que Ruth (Keira) e Tommy (Andrew) começam um romance, o que faz Kathy (Carey) se sentir traída e com ciúmes. O filme não se aprofunda nas questões éticas nem explica a criação dos doadores.

Para o diretor, Mark Romanek, o foco está na história de amor. "Apesar dos componentes de ficção científica, é um triângulo amoroso entre pessoas que conhecem seu destino e o aceitam", disse.

Romanek é um diretor competente, mas abusa de clichês para ampliar o drama: fecha a câmera numa bolinha de críquete esquecida no gramado ou em sacos plásticos presos a cercas. Mas o texto de Ishiguro, preservado na adaptação, garante uma certa qualidade a esse filme, que, mais do que qualquer outro, depende do estado de espírito de quem estiver assistindo.

O estado de espírito também determinou o efeito que as filmagens tiveram no trio de protagonistas. Andrew diz que ficou deprimido. "Quando li o roteiro pela primeira vez, senti um incômodo. Depois, passei a pensar muito na morte", afirmou o ator, que tem 27 anos.

É um filme para pensar sobre o sentido da vida, o papel que cada um tem na sociedade e sobre a morte.

Fonte: Folha Ilustrada

sábado, 16 de outubro de 2010

A voz de mentira


Encantei-me por essa moça há alguns anos atrás, logo na estréia de um site para o qual ela gravou um vídeo cantando sua composição Não Foi em Vão a capella. Ontem à tarde, meio que do nada, eu fiquei sabendo que à noite teria um show da atriz e cantora Thalma de Freitas no SESC de Barra Mansa, cidade vizinha a minha. Logo me animei e, convites arrumados, lá estava eu 30 minutos adiantado para ver o show. Esperava daquilo tudo um bom show, num tom intimista, voz pequena acompanhada por instrumentos em piano.

Sem grandes alardes a banda entrou no palco e tomou seus lugares. O público um pouco contido demais parecia nem perceber os músicos, em especial o grande Domenico Lancellotti, que conheci através do trabalho junto do Moreno Veloso e Kassin. Eles começam a tocar e, igualmente sem alarde, Thalma de Freitas entra no palco. Esguia, elegante, hábil em cima dos saltos de 12 centímetros, introspectiva como eu esperava. A canção era Cordeiro de Nanã, de longe minha preferida do repertório. Execução perfeita, Thalma é completamente afinada e concentrada ao cantar aquele ponto, como quem pede licença, como quem abre os trabalhos que estão por vir.

Thalma cumprimenta o público, abre o primeiro dos muitos sorrisos que estão por vir, fala do repertório e começa a fazer a segunda canção. É nesse momento que descobri que aquela voz era de mentira. A imagem introspectiva era de mentira. E mais: eu sairia do show tendo uma imagem completamente diferente.

Thalma é completamente sensual, tem olhar profundo e provocativo. Domina o palco em todas as suas dimensões. Vai ao chão com facilidade, fazendo bonitos e hipnotizantes desenhos com o corpo, num piscar de olhos está altíssima no alto daquela sandália, dominando também o ar, dançando como quem se inspira no oscilar vento.

A voz era de mentira. A voz é enorme como a artista. Acompanha cada movimentos dos instrumentos, vai aos tons opostos só por brincadeira. Estende notas com delicadeza impressionante, os melismas são pura viagem dela, puro deleite do público.

Ponto alto do show é a canção gravada para o projeto 3NaMassa, chamada de O Seu Lugar. É quase que indescritível o clima dessa música ao vivo, mas posso adiantar que é contagiante e excitante. Impossível não ficar absorto nos movimentos, na música e na voz.

Alegre e extrovertida, Thalma ainda faz muito show pela frente. Canta em espanhol, francês e italiano. Interage com o público, conta história, se emociona e deixa a certeza que estamos diante uma grande artista. Ainda que humilde e sem essa pretensão, uma diva.

Meu único arrependimento foi não ter levado a câmera para registrar as caras, bocas, danças e especialmente a voz da Thalma.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Esse filme eu já vi! (2)

E quando se pensa que vivemos na tão aclamada democracia lá vem censura, daquelas bem leve e simples. Mais um vídeo indolor e além de necessária a sua visualização, deve ser passada adiante.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Esse filme eu já vi!

É rápido, indolor e necessário ver o vídeo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A grande descoberta!

Provavelmente todo mundo já viu Gero Camilo em algum filme, seja encarnando o doidinho simpático de Bicho de Sete Cabeças ou como o Sem Chance, par romântico de Rodrigo Santoro no filme Carandiru. Embora estigmatizado para o grande público, Gero Camilo é um ator versátil, com carreira admiradíssima no teatro, tanto como ator quanto como escritor.

Se pouca gente sabe do talento de Gero para compor roteiros, menos pessoas sabem ainda que ele é um grande poeta. Tive contado com a poesia dele através de Astrolábios, interpretada pelo cantor Rubi, já apresentado aqui no Varal Fult. Mais recentemente, tive a felicíssima oportunidade de conhecer o lado cantor de Gero Camilo, através do seu álbum Canções de Invento (2008).

É um álbum sensacional! Diferente, empolgante e com capacidade de te tocar de um modo muito especial. Não é introspectivo, pelo contrário, é animador, com fôlego. Vindo de um artista com tantas facetas, o álbum só poderia ser múltiplo como é. Tem samba, tem MPB, tem coisa que você não sabe o que é. Arranjos e letras de qualidade, sem a chatice de seguir normas e fórmulas.

Despretensioso, o álbum consegue ser surpreendente pela regularidade. Não tem música mais ou menos. Cada um está ali por merecimento, tem conteúdo, provoca a mente a pensar ou o corpo a se mexer. Está mais do que indicado, todo mundo deve experimentar essas sensações!

Destaque para Vai Desabar, que fecha o disco num clímax delicioso. Ficou com vontade de ouvir também? É só clicar AQUI.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O folk autóctone


Não sei precisar há quanto tempo Renata Rosa passou a fazer parte da minha playlist, mas sei que de lá pra cá nunca mais consegui me esquecer dessa voz cristalina e imponente.

Nascida em São Paulo em 1973, além de cantora é atriz, pesquisadora, compositora e poetisa. Sua obra está intimamente ligada com a cultura da Zona da Mata Pernambucana, aglutinando de maneira muito ímpar e brilhante elementos do coco, dos xangôs, das cirandas, da música índigena e também ibérica. O resultado é música brasileira simples e da melhor qualidade.

Sua discografia é composta por dois CD's: Zunido da Mata (2002) e Manto dos Sonhos (2008), ambos regionalistas sem deixarem de ser multiculturais, tendo o som da rebeca como acompanhamento para a maioria das faixas, tocada pela própria Renata.

Desde 2003 já se apresentou quase 200 vezes pela Europa e Estados Unidos, conquistando prestígio e prêmios importantíssimos, como o Choc de l' Année 2004 (Le Monde de la Musique), prêmio máximo da crítica francesa.

Em Manto dos Sonhos encontramos a artista naturalmente mais madura, mas mantendo suas influências e reafirmando sua alma nordestina. Neste segundo trabalho encontramos canções mais melodiosas, com lirismo mais acentuado, como em Morena.

São CDs que revelam um Brasil muito particular e encantador, que todos deveriam conhecer e decifrar, pois são da nossa raiz, elementos formadores da nossa identidade cultural. É um batuque do bom, imperdível!

Experimente aqui: Zunido da Mata (2002) e Manto dos Sonhos (2008)

Acesse também: Site Oficial e MySpace.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

VMB

O VMB terminou agora e é tanta emoção que eu nem sei por onde começar. Restart ganhou quase todos os prêmios da noite! Família Restart sempre unida, levanta a mão e faz o coraçãozinho! \o/ --> s2 Como se não bastasse todas essas alegrias, Valeska Popozuda encerrou a premiação junto do Gaiola das Cabeçudas. É um êxtase tão grande que fiz um poema concreto pós-moderno em homenagem a ela. Confirão, ok!?
Waleska
ou
Valeska
Vales
Ska
Sky
KY.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Vídeo delicinha

Não é nenhum dueto genial ou emocionante, mas vale muito a pena pela SENSUALIZAÇÃO. Irresistíveis e provocantes!

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Festa da Menina Morta (2008)

Há algum tempo já eu e a Diana vínhamos pensando em escrever juntos sobre esse filme tão singular, mas acabávamos adiando, até que essa semana esse texto a quatro mãos tomou vida. Bora lá então!O filme nasceu com uma expectativa enorme por o Matheus Nachtergaele ser o diretor, seu primeiro longa-metragem. Diferente do entediante Feliz Natal, estréia de Selton Melo como diretor, A Festa da Menina Morta empolga e faz-nos criar expectativas no que ainda estar por vir.

Com roteiro de Matheus e Hilton Lacerda, o filme retrata a vida de uma população ribeirinha do alto Amazonas, onde há vinte anos o menino Santinho (Daniel de Oliveira) recebeu em suas mãos, da boca de um cachorro, os trapos do vestido de uma menina desaparecida. Ela jamais foi encontrada. O vestido virou coisa sagrada. Desde então se celebra a tal a Festa da Menina Morta, quando, no ápice da festa cerimonial, a menina manifesta por meio de Santinho, as revelações para o ano que virá.

A figura afetada do Santinho, cheio de vontades e que se afoga no próprio ego dá sustentação para todo povo da cidade e região. Gente pouco instruída, mas com muita fé, por ser a fé o bem maior que possuem. A mesma cidade que se ajoelha e beija os pés do Santinho, pede graças, faz do dia da Festa da Menina Morta um evento onde a essência religiosa é perdida e entra os costumes pagãos, como a barraquinha de churrasco com cerveja e cachaça, a dança e a diversão.

Este é um filme de grandes interpretações, com destaque especial para Daniel Oliveira, supracitado, e o pouco conhecido Juliano Cazarré (Tadeu), que dá vida a um dos personagens mais dramáticos e complexos da história, o irmão da menina morta, que sofre com o drama de perdê-la e ver um circo armado em torno da fatalidade.

De modo até mesmo um pouco cruel, o roteiro nos mostra como é fácil a mitificação de um ato banal, onde um povo que vive numa terra remota e esquecida pelos seus compatriotas e quem sabe até por Deus. Um povo de tantas carências encontra força na fé, por mais absurda que essa fé possa parecer aos olhos estrangeiros. Portanto, este não é um filme sobre ocultismo ou sobre cultura popular, é um filme sobre comportamento, construção de identidade social. As cenas são arrastadas, por a vida lá ser assim. A câmera foca cenas numa tentativa de compreensão.Alguns dizem que é um filme arrastado, entediante, frustrante e em certos pontos com cenas desnecessárias e grotescas. Creio que as pessoas lançaram o mesmo olhar frio que o filme lança pra pessoas que o assistem. Não há como querer assistir A festa da Menina Morta e querer sair ileso ou encontrar uma história regionalista bonitinha e nada mais. Por vezes, há um exagero sim, mas é bonito de se ver, perturbador, dúbio, provocante, humilde e imperdível!

Mais motivos pra ver A Festa da Menina Morta:

- A interpretação da Cássia Kiss é excelente. Ela não precisa de falas, de grandes cenas, de nada. Ela dialoga com os olhos e isso basta. A cena na qual ela canta Io Che Amo Aolo Te é deslumbrante. Ela só precisou da própria voz, a luz certa, água pra lavar os cabelos e aqueles olhos que dizem tudo. Mas não só por ela, é admirável e comovente ver um elenco inteiro entregue aos seus personagens doentes barrocos, absurdamente humanos;

- Daniel de Oliveira que se propõe a um personagem que segura toda a história e faz do enredo algo ímpar. Há entrega total, um ator sem vaidade, a serviço de sua arte. Faz de Santinho alguém real, palpável, asqueroso e ao mesmo tempo cativante;

- É desagradável, tem cenas que incomodam, tem o tempo que faz contorcer na cadeira. A intenção é incomodar, te fazer ficar 3 dias depois ainda pensando no filme;

- A fotografia de Lula Carvalho é um deleite à parte. Lembra a estética de Amarelo Manga e Baixio das Bestas, do cineasta Cláudio Assis, ídolo declarado de Matheus Nachtergaele.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Texto maneiraço!


Eu estava muito afim de escrever esse texto há vários e vários dias, mas ficava adiando porque sou um procrastinador. E também nem sei onde começar exatamente. A questão é que nos últimos tempos os adjetivos parecem estar perdendo o seu valor e sua intensidade, de modo que as pessoas não conseguem mais simplesmente dizer que “gostam” de alguma coisa ou de alguém, precisa falar que “adoram muuuuuuito!”. Como se não bastasse adorar, ainda é preciso intensificar em repetidas vogais essa explosão de sentimento.

Navego por aí e vejo comentários em fotos, ninguém é simplesmente bonito porque isso não satisfaz, todo mundo é “liiiindo” e “delícia”. São corpos onde as pessoas “se perdem”, “fazem estrago”, “dá canseira” e por aí vai.

Percebo que as pessoas nem tristes ficam mais, entram direto em depressão. São depressões muito efêmeras, duram uma hora e alguns minutinhos, ou o quanto durar o CD daquela banda “muuuito foda” com músicas “muito lindas!” que você coloca pra tocar no iTunes porque o considera “muito melhor” que o Windows Media Player.

Nada mais é simplesmente “estranho”, hoje as coisas são “bizarras”. Estamos num tempo em que as pessoas choram e riem litros, fazem BFF da noite pro dia e não conseguem viver sem uma infinidade tão relevantes quanto ter uma pulseirinha colorida de silicone. A propósito, o superlativo absoluto sintético de “ri litros” é “MORRI”. Prático, normal.

Vamos adotando esses exageros no nosso cotidiano sem ao menos percebermos, e quando nos damos conta já estamos “a-do-ran-do” a nova série da Globo e, em casos mais graves, escrevendo um depoimento pr’aquela pessoa que conhecemos há menos de 24 horas dizendo que ama.

Em contrapartida a todo esse exagero lingüístico, as relações interpessoais são cada vez mais frágeis, seu BFF pode ser seu desafeto num piscar de olhos. Os sentimentos são efêmeros e superficiais, existem de maneira mais realista em perfis do Orkut e do Twitter que na vida real. Quantidade demais pra qualidade de menos. É preciso reverter isso antes que percamos ainda mais o real significado das coisas. Deixa ser simples.

Não vivo sem vocês! Beeeijos, SEUS LINDOS!