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quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Entrevista com Validuaté!

Há algum tempo atrás eu apresentei a banda Validuaté aqui no blog. Era um tempo de euforia pela descoberta. Apresentei a banda pra muita gente, fico feliz que muitos tenham gostado e cantado a plenos pulmões Eu Só Quero Acabar Com Você (risos). Tempos depois, volto a falar da banda para anunciar que finalmente, com todo mérito da Diana por ter conseguido, entrevistamos os caras da Validuaté. O resultado é extenso, mas vale a pena saber um pouco mais da banda, das influências e do som feito por eles. Feita por mim e pela Diana, o resultado está logo abaixo. Agradecemos desde já a eles pela disposição e gentileza. Bora lá!
Som diferente, interessante e inteligente que brota do Piauí, uma região onde as a grande massa de ouvintes não espera que vá sair um grupo desses. Talvez isso possa parecer preconceito, ou até mesmo ser, mas realmente as pessoas em geral não tem muitas informações sobre as novidades musicais de uma região tão esquecida do nosso país. Como vocês lidam com esse olhar? Consideram o som de vocês regional?
Quaresma – Realmente, ainda não temos uma referência musical no âmbito nacional que possa gerar essa expectativa. Talvez a memória nacional recupere figuras piauienses mais ligadas à literatura como Torquato Neto, que também atuava na música e no cinema, Assis Brasil, e Da Costa e Silva. Mas na música mesmo não há quem relacione nosso som, ou o que tem sido feito por aqui, a qualquer outro trabalho piauiense reconhecido Brasil a fora. De alguma maneira, nos anima chegar com alguma novidade, mesmo que tardiamente, embora eu não creia que seja tarde, já que penso nossa música como fruto dos dias de hoje. É resultado de nossas experiências com o que tem sido produzido no Brasil, principalmente, dos anos 80 pra cá, e também de algo de tempos mais remotos. Quanto ao termo “regional”, às vezes soa um tanto pejorativo quando generaliza demais. O que há de regionalismo na música que fazemos são as expressões que utilizamos nos textos, e remetem a situações do dia-a-dia. É regional porque nasce aqui, e de alguma maneira representa um pouco a produção atual, mas não é regional no sentido direto de justaposição temática ou alegórica de elementos que compõem a imagem do nordestino para o restante do país.

Thiago E – Ah, Diana, em nome de todos da Validuaté, primeiro digo obrigados... Pois é. Realmente, muitas e várias e incontáveis pessoas preconceituosas pelo Brasil não esperam grandes coisas do Piauí. Isso é tristíssimo. Até mesmo muitos dos habitantes deste estado duvidam do próprio talento. Acontece bastante de aparecer um trabalho artístico bem feito, bem produzido, esmerado e alguém dizer “olha que massa! nem parece que é daqui”. Repito: isso é soturnamente tristíssimo. E pouca gente percebe que essa atitude é um problema cultural. Quando digo “é um problema cultural” não estou falando de “falta de cultura” – absolutamente ninguém pode dizer isso do Piauí: somos muito ricos culturalmente. Quando digo “é um problema cultural”, falo sobre a falta de hábito de se interessar na produção cultural local. É um problema na educação e vem de longa e antiga data. Quem trabalha com música autoral em Teresina tem enormes dificuldades financeiras... E pouco, ou quase nada, consegue divulgar seu trabalho. E assim, a gente fecha um trágico ciclo: 1º) grande parte do público, por questões históricas e culturais, pouco se interessa pela música local; 2º) A maioria das casas de show, “prevendo” que não vão ter platéia suficiente para o seu almejado retorno financeiro, não contrata bandas locais; 3º) E o público, por ter pouquíssimo, ou nenhum, contato com o trabalho autoral de Teresina, não vai gostar do que não conhece. Mudar isso vai ser demorado e complicado. Eu reafirmo a expressão “música autoral” porque aqui, devido a esses problemas, as bandas cover’s são super valorizadas, logo, fazer música autoral é, antes de tudo, uma militância, uma postura política! Sem falar das rádios: contam-se nos dedos de uma mão as que nos apóiam. A Rádio pública Cultura FM 107.9 faz um trabalho importantíssimo na divulgação artística daqui. O pessoal da Cultura FM é bom e merece muitos elogios e todo o reconhecimento e respeito. E quanto a sermos “regionais” ou não... é bastante simples. O rock é a coluna das nossas músicas. Pelo menos por enquanto, sei lá, tudo pode mudar. Misturamos com samba, reggae, um pouquinho de baião... mas o eixo, o cerne, o cimento é o rock. O problema é que o termo “regional” ficou preconceituosamente ligado apenas ao nordeste. Se um grupo põe qualquer elemento de baião ou “forró” numa música, ele imediatamente é rotulado “regional”. Mas nunca vi um paulista misturar rock e xaxado e ser chamado de “regional”. Então é aquela história: todo rótulo é opressivo. Às vezes também ligam o termo “regional” a uma certa tentativa de “pureza” na música, de tentar deixar “intacta” alguma manifestação artística... A Validuaté nunca se preocupou com isso. E nem acho que isso exista. Na “mundo multidão mil”, primeira faixa do nosso disco “Pelos pátios partidos em festa”, é dito “os movimentos vários das culturas / porque deus é movimento e mistura”. Ninguém da Validuaté se considera “regional” nessa acepção. O Vazin, nosso guitarrista e geógrafo, diz que “regional” é quem vem de alguma região. Nesse sentido, somos regionais. Somos de um vale do até...

A Internet tem aberto muitas portas para a apresentação de bandas novas (ou até mesmo as que estão na estrada há algum tempo). Qual a pretensão do grupo quanto ao público? Grande mídia, meios de comunicação em massa ou grupos mais seletos?
Quaresma – Nossa intenção é atingir um público cada vez maior, fazer nossa música ser conhecida, e dar oportunidade às pessoas de dizer se gostam ou não do que fazemos. O bom de sermos independentes é a liberdade que temos de criar um trabalho do nosso jeito, sem pré-moldes impostos por quem quer que seja. Se houver oportunidade para mostrar esse trabalho para a grande mídia, chegaremos puros como nascemos. Há planos de organizarmos pequenas turnês para poder tocar para um público que nos conhece apenas pela Internet.

Thiago E – Nós tentamos explorar bem a Internet. Podemos ser encontrados no Myspace, no palco mp3, no twitter, na comunidade do orkut, no nosso blog, no nosso site, no youtube... e, ainda bem, em vários espaços de outras pessoas que gostam e acompanham a produção da banda. Nós estamos nos organizando pra fazer mais viagens e tentar divulgar a Validuaté num âmbito nacional. Onde pudermos nos apresentar de uma maneira interessante, estaremos lá. Não gostamos dessa coisa de “grupos seletos”. Pra gente isso não existe. Isso seria o próprio artista se mistificar, se achar superior a alguém. Isso é besteira. John Well, Júnior, Wagner, Quaresma, Vazin fazem a Validuaté ter uma força agregadora que é fundamental pra todos nós. Perder isso seria perder tudo.

Músicas como Ela é, Plaina Maravalha, Eu só quero acabar com você, Essa moça, Eu preciso é de você (regravação da Jovem Guarda) são letras que visões diferentes sobre as mulheres. As primeiras mostram o lado "devorador de corações" que as mulheres podem ter, as últimas demonstram como os homens podem se perder e depender delas. Como vocês realmente lidam com esse universo e como instiga suas criações musicais?
Thiago E – A gente lida tranqüilamente... A banda não privilegia esse tema, isto é: não temos mais cuidado ou menos atenção quando estamos fazendo uma canção sobre “uma mulher” do que quando estamos compondo uma canção sobre outro assunto – “o céu”, “um peixe”, “a orelha da Maria Bethânia”, “o amor”, “o mar”... Nos empolgamos com o arranjo bem feito. Não temos essa de “um tema especial”. Um dos “baratos” da arte é tentarmos tornar qualquer assunto especial. Seja na música, na pintura, na poesia, na prosa... a arte tá aí pra isso: pra instigar um desafio na cabeça de quem vê e de quem cria. Alguém pode querer fazer uma canção sobre o amor e cantar “o amor que sinto é uma lâmpada fluorescente...”, aí o compositor tem de se virar pra dizer por que o amor é uma lâmpada fluorescente! (risos). O Torquato Neto diz “é inventar dificuldades pelo menos maiores”. (risos). Obviamente a figura feminina nos encanta. É só observar as duas capas dos nossos dois discos. O “pelos pátios partidos em festa” e o “alegria girar” trazem uma mulher em cada imagem. Porém, quando a mulher é uma personagem na música, trato com o mesmo alumbramento de quem percebe o mar pela primeira vez e diz “o mar rumina a terra o tempo todo”. Pra mim não é fácil, não é comum compor canção tratando do envolvimento amoroso, de romance... Acabo tratando mais de “coisas” ou histórias mais irônicas. É algo normal no meu comportamento. Já o Quaresma faz músicas sobre relacionamentos com uma naturalidade e um aprumo que invejo. O Quaresma é bom nisso. Ainda bem que ele tá por aqui.

Quaresma – Criar canções para mim é um exercício de representação da realidade, mesmo que seja uma realidade reinventada, ou pura ficção. A música pop, de modo geral, é construída em torno de algumas temáticas recorrentes: paixão/amor, abandono, solidão, admiração, desejo, etc. A maneira como se utiliza uma temática ou outra pode gerar as mais diversas impressões no público, das quais a surpresa é sempre a melhor. As nossas “canções de amor” não dizem “eu te amo”. É um exercício muito prazeroso, principalmente quando temos uma aceitação tão boa do público.

O cenário independente vem crescendo de forma meteórica e diversificada. Como lidam com esse mercado? Quais nomes podem nos indicar? Com quais gostaria de tocar, compor? E até mesmo os mais famosos, quais lhe enchem os olhos?
Quaresma – É um mercado que parece muito convidativo e desafiador. Parece haver lugar para todos quando vemos as ferramentas à nossa disposição. Ao mesmo tempo parece que fica muito a cargo de cada um. Algo do tipo “às próprias custas s/a”, e atuar em diferentes setores da cadeia produtiva da música se torna algo fundamental para compreender o funcionamento do mercado de antes, e do que tempos agora. A Internet é nosso grande aliado na divulgação do trabalho da banda bem como na formação de nosso público Brasil afora. Um dos melhores exemplos de banda que tira todo o proveito da Internet para divulgação e interação com o público é a brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. Considero os meninos do Móveis um modelo de organização. Creio que cada músico da banda até imagine grandes artistas participando de alguma gravação ou show nosso. Acho que isso tem mais a ver com a essência de cada música. Por afinidade e admiração, seria uma honra poder tocar/compor algo com Céu, Nação Zumbi, Arnaldo Antunes, Tom Zé, André Abujamra, Moska, Adriana Calcanhoto, Lenine, Vitor Ramil etc.

Thiago E – Olha, somos uma banda como tantas milhares de outras bandas pelo Brasil: adoramos o que fazemos e buscamos nos manter apresentando nosso trabalho. Esse é o objetivo de milhares de bandas. O mercado é inflacionado e não há espaço pra todo mundo. A verdade é essa. Não cultivamos ilusões. Eu até brinco parafraseando uma frase do Stanislaw Ponte Preta: “Validuaté: despontando para o anonimato” (risos). Não sabemos se conseguiremos tocar, gravar mais discos e nos manter com a música... Ou se seremos mais um grupo sufocado pela dificuldade e pela falta de recursos. Tudo é incerto. O que sabemos é que viver de música autoral por aqui é fazer um milagre. Como não temos o dom de fazer milagre, resta-nos tentar também outras paisagens. É como diz outra do Stanislaw “quem quer ser artista tem de carregar o circo nas costas”. Várias bandas e músicos daqui têm um trabalho autoral interessante: Clínica Tobias Blues, Obtus, Roque Moreira, Fragmentos de Metrópole, Eucapiau, Teófilo, Eita Piula, Batuque Elétrico, Captamata, Maykel Francis, Joniel Veras... entre outros grupos e músicos. As produções estão acontecendo... Como todo mundo, a gente da Validuaté admira muitos artistas. Também tocamos algumas músicas de quem admiramos: Tom Zé, André Abujamra, Arnaldo Antunes, Márcio Greyck... Se, no futuro, formos parceiros de um deles já vai tá bom demais! Mas já conseguimos alguns encontros maravilhosos. No disco “Alegria Girar”, contamos com a participação do poeta Ferreira Gullar, do cantor, compositor e ator Lirinha, do ator e dublador Isaac Bardavid e do ator, cantor e compositor Zéu Britto. Pra gente foi-é-e-será uma felicidade!

Dois CD's, alguns clipes soltos na Internet e um bom número de admiradores fiéis, planos pra um próximo projeto? Tocar nas grandes capitais?
Quaresma - Está em nossos planos, antes de gravarmos um disco que encerra a trilogia doa álbuns em estúdio, produzir um DVD com repertório dos dois primeiros trabalhos e mais algumas músicas inéditas. Além de participações especiais. Paralelo a isso, vamos organizar pequenas temporadas por outras capitais e outras regiões do país. Alimentar nosso público que nos acompanha tão somente pela Internet. Tudo com calma e planejamento.

Vemos em comunidades do orkut e do Last.FM que grande parte do público da banda é feminino e se derretem todas pelas músicas e por vocês. Pois então, há assédio nos shows? Como os compromissados lidam?
Thiago E – Isso é tranqüilo. A maioria da banda é compromissada e há respeito. Obviamente existe aquela coisa do fetiche do palco e tal, mas não dou importância pra isso. Aliás, qualquer pessoa sã que nos observe concluirá que não temos atrativos físicos (risos). Vez por outra ouvimos comentários “rapaz, a Validuaté... Ô banda pra ter cabôcos fêi, menino! Os cara até tocam bem... mas, ali, num escapa um!!” (risos!) Pois é. Eu só defendo o Wagner. Só o Wagner é bonito! É nosso Ébano, nosso precioso, nosso Orfeu Negro! (risos!)

Quaresma – (risos, risos) O assédio acontece, mas não é nada escandaloso que nos force a correr pelos corredores ou chegar por alguma porta secreta. Todo o encantamento acontece enquanto estamos sobre o palco. Quando a gente desce, sempre tem alguém que aborda para parabenizar, perguntar por que não tocamos música tal e tal, ou mesmo só para dar um abraço. As respectivas namoradas de cada músico da banda são bem pacientes com esse assédio. Mesmo porque depois do show a gente parece que volta à forma de abóbora (risos).

Para os mais simplistas e/ou para as massas, ao ouvir o som de vocês podem, equivocadamente, achar o som de vocês semelhante demais com outras bandas fora do eixo RJ - MG - SP, como Cordel do Fogo Encantado ou até mesmo Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. Vocês lidam bem com essas comparações ou procuram se afastar cada vez mais delas?
Thiago E – São bandas de um som maravilhoso e as admiro. Realmente, já nos compararam com o Cordel e com o Mundo Livre. Mas, sinceramente, não vejo grandes semelhanças... quase nenhuma. A Validuaté mistura um pouco de poesia às suas práticas e tal... o que poderia nos aproximar do Cordel... Mas o nosso som é muito diferente, trabalhamos com esses elementos de forma diversa. O formato de banda e os timbres não têm nada a ver! Poderiam nos aproximar do Mundo Livre pelo uso do cavaquinho no rock e tal... mas é a mesma razão: misturamos esses elementos de maneira diversificada. Nossa escrita é outra, nossas melodias são outras, nossa pegada é outra. Se nos comparássemos ao Nação Zumbi, eu também só poderia receber como um elogio – eles são fantásticos – mas iria aconselhar essa pessoa a fazer uma avaliação psíquica o quanto antes. Gostaria que as pessoas olhassem pra Validuaté como Validuaté mesmo. Por mais que te comparem com nomes importantes, todo mundo quer ser o que é mesmo.

Comparando Pelos Pátios Partidos em Festa e Alegria Girar, notamos que o segundo é um álbum mais maduro, letras e som mais elaborado, são músicas mais fáceis de ficar na cabeça (até minha mãe anda cantando Eu Só Quero Acabar Com Você, haha), um outro padrão. Pois então, quais experiências a banda acumulou entre um trabalho e outro e o que poderia explicar a mudança?
Thiago E – O “Pelos pátios partidos em festa” é primeiro cd. Tem os atropelos e as delícias de toda primeira vez. Quando o gravamos passamos por uma série de problemas. Alguns por inexperiência e outros de ordem do acaso da vida mesmo, dos rumos que tudo toma. Houve um pouco de pressa, por falta de informação também tivemos pouco cuidado com a captação dos sons na gravação, a escolha do estúdio, os horários no estúdio eram ruins, etc, etc, etc. Uma série de fatores. Hoje, nos incomodamos com a qualidade técnica da gravação... e talvez o público, sem perceber, se incomode também com o áudio... Mas nós adoramos as canções do “Pelos pátios partidos em festa” e temos planos para melhorá-las: quem viver verá (risos). Já o “Alegria girar” foi feito com um cuidado bem maior. Não queríamos repetir as inexperiências do primeiro. Pesquisamos, nos empenhamos e também tivemos a sorte de trabalhar com engenheiro de áudio Mike Soares. Com os toques dele mudamos bastante. O grupo tava coeso. Mas, sobre esse percurso todo, é bom ser observado uma coisa... Não podíamos ficar esperaaando uma situação ideal aparecer. Queríamos fazer, mesmo aos trancos e solavancos... falta de aparato técnico não significará inércia criativa...

Conte-nos um pouco sobre o início da banda e o que cada um trouxe como bagagem para formar esse som tão diverso.
Thiago E – A Validuaté surgiu em 2004 e permanece, praticamente, com a mesma formação: John Well na bateria recarregável de longa duração, Vazin e Júnior nas guitarras, eu toco pandeiro e cavaquinho, Wagner Costa no contrabaixo e Quaresma na voz e instrumentos adicionais. Como todo grupo, temos semelhanças e diferenças e sempre procuramos respeitar os desejos uns dos outros. O John Well tocava música gospel na igreja e dá aulas de bateria; o Vazin participava da cena metal, cantava em coral também e dá aulas de geografia; eu tocava sambas e pagodes naquela onda dos anos 90, depois me interessei por rock, poesia e dou aulas de literatura; o Wagner tocava música instrumental, em banda de pop rock, canta num grupo vocal e faz mestrado em literatura; o Júnior tocava música pop e é gerente do bar Recanto do Caranguejo; o Quaresma sempre cantou, é professor de inglês e português e também é publicitário. Então temos uma diversidade boa. Cada um acrescenta unicamente e funciona. O grupo é bom. O que nos une é nossa tolerância e nosso extraordinário senso de humor. (risos!)

Quaresma – O bacana do grupo é a pré-disposição pela busca do novo, de experimentar os detalhes de algo desconhecido. Antes da Validuaté eu tocava MPB com o Júnior. Aquele repertório de churrascaria mesmo. Mas desde sempre eu quis construir algo novo. Até chegamos a participar de festivais com as músicas que já nasciam naquela época. Isso rendia uma ou duas apresentações por ano com duas ou três músicas próprias. O grupo se chamava Papel di Parede. O difícil era inserir esse novo num contexto em que a música serve para ajudar o pedaço de carne descer com um gole de cerveja. Foi aí que desistimos de tocar música com cheiro de picanha e decidimos criar uma nova história. E nasceu a Validuaté.

Mesmo em letras sérias, é possível notar doses de humor, fazendo com que estas flertem com músicas ditas "bregas", brincando com uma linha bem sutil entre o romântico e o brega. Há receios quanto a isso ou o som que vocês fazem é puramente passional, sem preocupações de estilo?
Thiago E – É como eu disse anteriormente: não nos preocupa evitar nem permanecer. Exploramos o som dito “brega” ou “romântico”. E quando criamos algo nesse gênero, sabemos o que estamos fazendo e quem nos escuta também sabe. É como se fosse um ato, ou uma parte de um espetáculo que tem partes diferentes. Isto é: não ficamos no “brega” o tempo inteiro, todos sabemos que logo acontecerá algo novo. Não há receio quanto a essa classificação. De certa forma, é um momento em que há um sarcasmo de nossa parte com essa enxurrada de músicas, no rádio ou na TV, falando desse amor meloso.

Quaresma – Colocamos muito de paixão também no que fazemos. O traço brega de algumas de nossas músicas passa também pela via do humor. Um dor sofrida que precede o riso de quem vê graça nas relações amorosas.

Vemos ultimamente que as bandas têm uma vida efêmera. GRAM, Los Hermanos, Cordel do Fogo Encantado e tantas outras declararam o fim ou então uma "pausa por tempo indeterminado". Podemos esperar vida longa a Validuaté? Quais são os planos e projetos da banda atualmente?
Thiago E – Olha, eu não sei se essas bandas tiveram essa “vida efêmera”. Não conheço o GRAM. Mas o Cordel do Fogo Encantado e o Los Hermanos duraram o tempo que quiseram durar. Foi algo acordado. Nenhuma tragédia aconteceu pra impedi-los de produzir e tal. Eles podem, inclusive, voltar. Mas, para além das músicas, existe a convivência. E essa, às vezes, é melindrosa: juntar pra dar certo os desejos e os comportamentos de várias pessoas é cheio de pregas e complexo e é preciso sabe-se lá o quê... Quando a gente gosta de um grupo que se acaba, ficamos um pouco pra baixo, etc. Porém é um sentimento pessoal e cabe a cada um resolvê-lo da sua forma. E as pessoas dizem “mas, por quê?” etc. Contudo, quem sabe da pedra é quem calça o sapato. Nesse contexto musical, as coisas duram o que tem de durar. Tem de ser respeitado. Obviamente a Validuaté deseja essa vida longa. Estamos ávidos pra nascer e começar em outros lugares e renascer e recomeçar num devir incessante. Tomara que dê certo. A cada tempo que passa aprumamos artes novas e queremos vivê-las com outras pessoas. Temos o espírito musculoso. Contudo, a vida é essa sucessão de acidentes imprevisíveis. Torço pra que tenhamos acidentes felizes, espantos bons. O Vinícius nos avisa: “que seja infinito enquanto dure”. Tomara que esse “enquanto dure” seja um pedação do tempo.

Quaresma – Vida longa à Validuaté. Cenas dos próximos capítulos: viagens, DVD, viagens, clipes, viagens, 3° CD, clipes, viagens, viagens... fortes abraços para todos e até breve!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Esse filme eu já vi! (2)

E quando se pensa que vivemos na tão aclamada democracia lá vem censura, daquelas bem leve e simples. Mais um vídeo indolor e além de necessária a sua visualização, deve ser passada adiante.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Entrevista com Túlio Borges

Sempre sutil, com canções vão da paixão à melancolia e do rústico ao elaborado, Túlio Borges é cantor para ouvir atento a fim de não perder nenhum detalhe dessa musicalidade tão primorosa. Devo conhecer o trabalho de Túlio desde março deste ano, só não lembro bem como o som dele chegou até mim, mas creio que foi através do meu perfil lá no LastFM. Como de costume, tudo que eu gosto eu espalho por aí, faço os amigos ouvirem junto comigo, dessa vez não foi diferente. Pouco a pouco mais gente ao meu redor foi afeiçoando ao trabalho do cara, que é mesmo bom.

Há alguns dias a Diana, minha parceira aqui no Varal, fez contato com o Túlio, no meio disso tudo ela falou do blog e o convidou para uma entrevista. Convite aceito, cuidei de fazer as perguntas, que ele prontamente respondeu. Posso afirmar sem receios que foi uma das entrevistas mais agradáveis feitas até hoje no Varal Fult. O resultado vocês conferem logo abaixo.

Varal Fult: Eu Venho Vagando no Ar, seu CD de estréia, começa evocando a figura mística do caboclo através de “Pontos”, além de citar outros elementos do africanismo como o terreiro e a cidade da Jurema. Qual sua ligação pessoal com estes elementos? Por que incluí-los no álbum?
Túlio Borges: Olá para os leitores do Varal Fult. “Eu venho vagando no ar” é disco de uma estreia que veio sem pressa. Desde o início, tive vontade de que fosse um álbum como os de antigamente, aqueles que ouvi na infância e adolescência: um disco, com uma estória, início, meio e fim. A primeira faixa é composta por 5 pontos do candomblé que conheço desde menino, quando os ouvia de uma pessoa querida. As letras são leves e as melodias muito bonitas. Achei intuitivamente que faria sentido que introduzissem o ouvinte ao universo sonoro deste trabalho. Não à toa, um dos versos dá nome ao CD. Não sou religioso e, em matéria de música, não tenho qualquer compromisso que não seja musical. Pesou, além da memória afetiva, o fato de que os pontos afro-brasileiros tendem ser registrados na música brasileira com ênfase na percussão. Eu queria valorizar as linhas melódicas e os versos livres e simples.

VF: Por que cantar? O que pesou na hora de escolher a música como profissão?
TB: Escolhi não ser músico profissional e vivo como tradutor. Estudei música por muitos anos quando criança, e sempre soube que não queria sobreviver de música, mas tê-la à mão como fonte de apoio e prazer. Eu canto como quem chora, só quando dá muita vontade.

VF: Estrear aos 29 anos pode-se dizer uma ousadia, a indústria fonográfica normalmente lança nomes mais novos. Em contrapartida, a tal “estréia tardia” revela um amadurecimento que é perceptível na qualidade e equilíbrio do álbum. Ao tentar encontrar espaço nas mídias, o que se sobressai?

TB: Ousar é fazer. Quem faz o que acredita, da maneira que acha ser a melhor, pode morrer mais feliz. Não digo que o disco é perfeito, mas eu o dei terminado porque passou no meu crivo. Penso que se me agrada, é provável que vá achar vários outros que gostam. Se não agradar, sinto-me tranquilo também. Acho que quem se dispõe a ouvi-lo, observa que ele é verdadeiro. Além disso, com o cuidado e a quantidade de músicos excepcionais, escolhidos a dedo para cada música, o resultado não poderia ser menor do que ótimo. Espero que concordem comigo.

VF: Ao contrário de tantos outros artistas que voltam ao Brasil depois de uma temporada no exterior, você lançou um álbum onde a brasilidade está muito presente e próxima da sua raiz. Contudo, é um trabalho multifacetado, plural no que diz respeito a ritmos. Quais são suas influências e qual a melhor forma de lidar com elas sem perder a autenticidade?

TB: Cada um é um filtro do muito que vive no mundo. Em teoria, quando nos conhecemos e somos fieis quem somos, conseguimos ser autênticos. Quando me mudei do Brasil, fui sem planos de voltar, mas passaram-se os anos e me dava conta que o país que me pertence é o Brasil. Aqui é que conhecem a carga das palavras que uso. Eu me sentia um personagem mais superficial fora. Foi ótimo como foi e reforçou o gosto pelo que é bom no Brasil, como a música.

VF: Qual é a importância de ter participado de diversos festivais de música?
TB: Os festivais são enriquecedores pela troca com outros músicos. Formam um circuito alternativo interessante, ainda que sejam limitados pela característica competitiva da maioria deles.

VF: Vytória Rudan é sua parceira em duas composições do álbum (Paraty e Zorro), além de formarem um dueto em uma das faixas. Como nasceu essa parceria?
TB: A Vytória é amiga de outros festivais, literalmente. Uma pessoa rara e intérprete como poucas. Da amizade próxima surgiram as parcerias.

VF: Quais são suas inspirações para compor?
TB: Antes de dormir sinto necessidade de me sentir produtivo. Às vezes, perco o sono se não sinto que fiz algo importante. Naturalmente, de noite sai a maioria das canções. Aquelas feitas à noite costumam ser mais introspectivas, nostálgicas. As de manhã são brincalhonas. Falo sobre coisas da minha vida.

VF: Sabemos que ainda é cedo, mas o CD de estréia deixa-nos com desejo de “quero mais”. Há planos para um próximo trabalho?
TB: Há planos, sim; não tardará muito, espero que saia em 2011. Já tem um repertório delineado, será um disco mais parecido comigo, com letras divertidas e mais estórias. Estou ansioso desde já pra entrar em estúdio.

VF: Agradecemos pela gentileza em ceder essa entrevista e pela atenção. E também pelas músicas, claro. Alguma observação, palpite ou recado pra deixar para nós e para a galera que acessa o Varal Fult?
TB: Ouvir música hoje é bem diferente do que nos tempos de meu pai. A diversidade é enorme e a gente tem que tomar as rédeas do que escolhemos escutar. Nesse sentido, o varal tem um lugar estratégico de apresentar opções.
Abraço pra vocês!

___________________________________________Túlio Borges, por e-mail.

Para conhecer mais, baixar e ouvi-lo: Perfil do Túlio no MySpace

domingo, 11 de julho de 2010

Entrevista com Roberta Campos




Som adocicado que vem dominando as rádios e se alastrando pelos estados brasileiros. Roberta Campos com toda a sua simpatia e atenção nos cedeu uma entrevista. Obrigada Roberta!

Entrevista

1-Seu som era gravado de forma caseira, com capa feita à mão. Tudo bem
pessoal, caloroso. Agora com um contrato assinado com gravadora tudo
se torna mais profissional. Como você lida com esse grande salto? E
como não perder esse calor sendo profissional?

(Roberta Campos) Meu primeiro disco eu gravei na sala do meu apartamento, foi um
processo bem artesanal, fiz tudo, desde as composições até a capa. Foi
um processo bem artesanal, mas profissional, apesar de totalmente
independente.Saindo do independente, tendo um pessoal junto comigo, o maior cuidado
tomado foi deixar as canções como elas são, mantendo a originalidade.


2-O cenário independente vem crescendo de forma notável e tem
utilizado a internet como grande aliado. Você disponibiliza sempre
muitos vídeos, músicas em diversos meios de comunicação (orkut,
twitter, myspace). Agora com uma gravadora isso pode mudar? A relação
com os fãs terá algum obstáculo?

(Roberta Campos) Não.Continuo tendo total liberdade, sempre fiz isso pra divulgar
minhas canções e porque curto tbm. Pode ser que com o aumento dos
trabalhos eu reduza por falta de tempo. Eu adoro interagir com as
pessoas.


3-Temos a Mallu Magalhães como um grande exemplo de cantora folk que
ganhou reconhecimento da mídia através de suas músicas que foram
inicialmente lançadas na internet. Esse estilo de música ganhou um
maior espaço nos meios de comunicação em massa depois disso. Como você
tem percebido esse aumento de apreciadores do folk nacional?


(Roberta Campos) Na verdade a Mallu é Folk, mas muitos outros cantores e bandas que
tiveram destaque depois dela, nem todos tem o mesmo estilo. Vejo que
depois dela ficou mais notado o que já vinha acontecendo, que a
internet é uma boa aliada e que ela é um grande começo pra vc divulgar
seu trabalho. Acho que o folk no Brasil ganhou mais apreciadores sim,
mas tbm vejo muita coisa que se diz folk que não enxergo como tal. Meu
som mesmo, tenho uma pegada folk, mas não me encaixo no estilo, meu
som é uma grande mistura.


4-Como foi poder gravar uma música com um ícone musical que é o Nando
Reis? E com quais nomes almeja compor ou cantar junto (do cenário
independente ou não)?

(Roberta Campos) Foi fantástico. Eu sempre admirei muito o Nando e não poderia ter sido
melhor a escolha e o resultado. Hoje não penso ainda em alguém pra
cantar comigo, admiro varias pessoas, mas como estou nesse trabalho de
divulgação do disco novo, tenho esse grande foco. Compor é mais
complicado de dizer, pq comigo esse lance de composição é natural
demais e os parceiros surgem quando se manos espera, mas claro, tenho
grandes compositores que admiro muito.


5-Em tempos difíceis do mercado fonográfico por conta da pirataria,
você tem um catálogo de produtos que disponibiliza vinil pra edição de
colecionador, canecas, camisas e botons personalizados, que levam a
estética do seu trabalho. Conte-nos um pouco como surgiu essa idéia e
sobre a aceitação mercadológica dos produtos.

(Roberta Campos) A ideia surgiu para divulgar o trabalho, levar a arte e o pessoal tem
curtido muito, os produtos ficaram bonitos. O Vinil me deixou muito
feliz, foi como meu sonho em ter um disco começou...a aceitação está
muito boa, a galera tem curtido.


6-Suas músicas tem uma "pegada pop" bem marcante, sendo fáceis de
ficar na cabeça de quem ouve logona primeira vez. Essa questão é
pensada na hora de compor ou suas composições são puramente
intuitivas?

(Roberta Campos) Nunca. É tudo muito natural, é que tenho uma influencia pop tbm, essa
pegada é impensada, na verdade nem consigo perceber.


7-Através do seu CD de covers, percebemos múltiplas influências e de
diferentes estilos musicais, nacionais e internacionais. Já o seu CD
autoral é um álbum mais homogêneo nesse quesito; como se deu essa
definição estilo?

(Roberta Campos) Na verdade esse CD de covers foi uma pessoa que pegou musicas na
internet e montou um arquivo para que as pessoas baixassem todas as
canções de uma so vez. Eram canções que eu gostava de ouvir e acabei
gravando de pura diversão. Como vc disse, nos covers encontramos uma
certa diferença nos estilos...minhas musicas são um reflexo de tudo
isso, meu estilo se dá a tudo que ja ouvi, tudo que escuto, é
inconsciente.


Rapidinhas!

Nome completo: Roberta Cristina Campos Martins Sant'Ana
Data e local de nascimento: 29/12/1977 em Caetanópolis/MG
Um lugar: minha casa
Religião ou crença: Deus
Um ídolo: minha Vó
Um sonho: montar uma escola de musica
Maior felicidade até hoje: tenho vários momentos felizes...
Música preferida: são várias...cada dia escolho uma. rs
Uma mania: organização
Comida preferida: mexicana
Um prazer: a música

Podemos encontrar a Roberta no:
http://www.myspace.com/robertacampos
http://www.robertacamposoficial.com.br/
http://twitter.com/robertacampos
http://www.lastfm.com.br/music/Roberta+Campos
http://www.varrendoalua.com/

terça-feira, 22 de junho de 2010

Entrevista com Filipe Catto



Há um tempo atrás a Diana publicou aqui no blog as impressões dela sobre o cantor Filipe Catto. Eu quem o apresentei a ela, e acho que foi um amigo via MSN que me apresentou o trabalho dele. Mandeis músicas do Catto para muita gente, numa ciranda de informações. Foi uma paixão à primeira vista por aquele som doído e intenso, numa voz tão singular. Eu e Diana, não contentes em apenas ouvir o EP repetidas vezes, resolvemos entrevistá-lo. O resultado é extenso, mas bastante agradável. Vambora à entrevista:


Varal Fult: Sabemos que suas composições são auto-biográficas, surpreendentemente densas para a idade que tens. Sendo assim, cada vez que canta é como se a ferida fosse aberta, exposta mais uma vez. Torna suas interpretações calorosas, doídas até. Em contrapartida, ao vê-lo falando, dá a impressão de alguém tímido, meio acanhado (quiçá apático, rs), oposto ao Catto em cima do palco. Até que ponto essa exposição através da sua arte é válida? É sua válvula de escape?

Filipe Catto: Eu me exponho através da arte porque eu acredito que o palco é pra isso mesmo, sabe? Se eu não me exponho cem por cento no meu palco, eu não tenho motivo de estar ali. Não existe espaço pra dissimular, sou eu me jogando na arena dos leões... e eu preciso fazer aquele momento valer a pena. Mas a questão de ser biográfico não funciona bem assim. Nada ali é preto no branco, eu não vivi aquilo literalmente... mas é do meu imaginário sim, dos meus fetiches e que são até bem comuns. Eu gosto de falar sobre isso, dessa coisa inconfessável, feia e até cafona, porque eu acredito que essa seja a verdade comum a todos nós. Aquela palavra que eu tenho medo de dizer é a palavra que tu tem medo de ouvir... E quando ela é dita, a gente reage, pro bem ou pro mal. Eu faço música a mercê dessas interpretações, não me importa se causa desconfortou ou serve como bálsamo, desde que o público não se mostre indiferente.


VF: Apesar da grande qualidade do seu trabalho e do sucesso do EP Saga, ainda tem um público limitado, mais seleto. Pretende expandir esse público? Alcançar a grande mídia, os meios de comunicação em massa ou pretende manter um grupo menor, com espetáculos menores, em espetáculos intimistas onde a troca do artista com o público é mais intensa?

FC: Eu não existo no palco sem a comunicação do público, é muito importante pra mim manter esse elo cada vez mais forte, mas isso pode acontecer em uma platéia de 100 expectadores ou de 150 mil. Sinceramente, eu não to pensando muito nisso agora, eu só quero cantar cada vez mais e, claro, para o maior número de pessoas possível. Nunca foi da minha preocupação atingir tal ou tal público, e, na verdade, eu venho me surpreendendo bastante com o alcance que o ep tem tido na internet e fico muito feliz com isso. Mas eu quero ver o que vai acontecer daqui em diante, eu estou aberto a descobrir como isso vai se desdobrar


VF:
Há algum CD está a caminho? Se há planos, pode nos adiantar algo sobre a temática e a estética? Continua na mesma linha do EP ou não?

FC: Olha, todo meu trabalho atual está caminhando para um novo disco, sim... tem muita coisa nova e também coisas antigas que não entraram no disco. Não vai ser como o SAGA, não nos mesmos moldes, mas também não será nada como uma mudança radical. Eu sou um compositor de canções, eu gosto de música estruturada, melodiosa, interpretativa... então o disco será, sim, um disco de canções e de interpretação. Mas eu também busco um teor diferente, sei lá... Eu ando ouvindo coisas muito diferentes, coisas mais cruas, como Billie Holiday, Nina Simone, os discos ao vivo da Bethania, Nick Cave e pode ser que vá pra essa linha. Acho que a estrada me deixou mais seguro pra usar a minha voz e ter mais consciência dela. O palco também me deixou com mais segurança quanto à minha interpretação, então pretendo que meu próximo trabalho seja a busca de um retrato fiel do que eu sou no palco, com todo o vigor que for possível e que são claros nas minhas referências.


VF: Seu EP foi lançado totalmente gratuito na internet, num intuito de divulgar mesmo o trabalho. A cada dia nos deparamos com mais compositores e cantores do mercado independente que estão tendo reconhecimento e buscando público fiel e de diversos cantos do Brasil e até mesmo exterior. Como foi pra você se jogar nesse mundo tão amplo e desconhecido da mídia? E quais nomes desse mercado independente que mais te chamam atenção ou convive?

FC: Eu não estaria aqui dando esta entrevista pra você se eu não tivesse colocado o disco pra download gratuito. Eu sou de Porto Alegre, um lugar onde o mercado de musica se comunica muito pouco com o resto do país, pelo menos na MPB. Colocar o disco na net foi a forma que eu encontrei de fazer meu trabalho ecoar mais amplamente, de eu não ficar enjaulado. Fora isso, eu acredito na internet, eu acredito na democratização da cultura e da musica, eu sou partidário disso, é uma coisa que eu quero manter. Eu quero continuar a colocar meus trabalhos pra download gratuito, até pq nenhum artista vive apenas da venda de disco. Hoje em dia, o público que dita o que quer e o que não quer ouvir, vide o sucesso de diversas bandas independentes... e cair na mídia de massa pra mim não faz muita diferença. Meu negócio é ter meu público fiel, eu só quero isso.



VF: Tens uma voz ímpar, pra quem não te conhece e nunca viu essa sua carinha de menino rebelde e tem um ouvido leigo, crê que está ouvindo uma voz com um toque feminino. Um interpretação vocal tão intensa que chega a ter um quê de uterina, uma ferocidade feminina, de mulher traída, abandonada, apaixonada, alforriada. Temos um grande exemplo que é o Chico Buarque que tem composições com visão feminina de forma primorosa. Queremos saber como isso tudo surgiu ou pode ter surgido? E quais suas influências musicais (femininas ou não)?

FC: (risos) Olha, eu não sei bem da onde vem, e nem quero saber muito. É uma coisa muito louca, porque todo mundo diz que eu falando é outra coisa... Mas enfim, minhas influências sempre passaram por essa interpretação forte: Nina Simone, Elis, Bethania... O Chico é super influência como compositor também, assim como Gonzaginha, o Cartola.


VF: O Brasil é tradicionalmente um país de cantoras, onde novas voezes surgem a todo momento, e há muito anos há essa predominância de vozes femininas na grande mídia. Você encara essa carência de cantores no mercado fonográfico como uma oportunidade a mais ou uma dificuldade para se inserir?

FC: Os dois. Acho que tá surgindo toda uma gama de cantores homens excelentes no mercado. Tem o Leo Cavalcanti, o Artur Nogueira, o Bruno Moraes... então não é como se eu fosse o único, muito pelo contrário. Eu acho que o intérprete homem tem uma responsabilidade grande de ter uma expressão diferente, de ser compositor, por exemplo, mas eu não me abalo muito com isso.


VF: Percebemos pelas suas letras "redondinhas", com ténica literária, que és um excelente compositor. Houve alguma formação específica ou aperfeiçoamento com estudos? Até que ponto a sua música dialoga com a literatura e/ou com o cinema?

FC: Eu sou um escritor frustrado, sempre quis escrever, porque adoro ler e li muita coisa durante minha vida toda, então isso respinga diretamente no meu trabalho sim. Eu tenho uma preocupação literária na maneira em que eu combino uma música com a outra no repertório, por exemplo. Eu gosto de ter uma certa linha narrativa no show através das canções, mas nunca estudei isso especificamente, não sou poeta.


VF: Analisando de modo frio o seu EP, começamos intensamente num tango e passamos pelo amor tido como um vício (Saga), a vingança e o sexo sujo (Ressaca), a intimidade e a introspecção necessária (Ascendente em Câncer), a traição como vingança (Crime Passional) e o amor exagerado (Teu Quarto). São versos fortes, alguns até mesmo piegas, flertando com a linha tênue entre o romântico (no sentido trágico do termo) e o brega. Houve alguma preocupação em não parecer over ou brega?

FC:Nenhuma, na verdade. Eu sou over, minha música é over e vai ser over enquanto eu for assim. Eu não tenho medo disso, não esquento. Eu não tenho nenhuma pretensão de ser sofisticado, de ser cool, de ser hype... eu acho isso tudo muito chato, muito blasé. Eu sou anti blasé, não to aqui pra fazer tipo, eu só quero falar a minha verdade pra quem quiser ouvir.

VF: O EP é um acerto do início ao fim, tendo Roupa do Corpo destoando das demais, e fechando o trabalho com chave de ouro. É uma música de desapego, de partida, uma volta por cima. O EP é realmente essa novela de amores e desamores com um final triunfante de vitória ou estamos equivocados?

FC: É um disco sobre superar as coisas, é sobre força, sobre cabeça erguida, sobre dignidade... sobre ir ao fundo e renascer das cinzas - isso pra mim. Mas acima de tudo, é o que você quer que seja. Eu acho que a função da minha música é falar para cada um, não quero conceitualizar demais, sabe? Se você acha que ele é isso, ele é exatamente isso.


VF: Todo mundo tem seu "gosto sórdido" que procura esconder dos outros, seja por ser brega, por ser pop, por ser trash. Recentemente, Thiago Pethit revelou ser fã de Lady GaGa e até mesmo cantou Bad Romance ao piano. Você tem algo que se acanha em mostrar/falar? Pode nos contar o quê?

FC: Eu adoro meu gosto sórdido. Eu adoro ir fundo nas letras das músicas e tem algumas músicas brega que tem letras super dolorosas... Eu acho que as pessoas se chocam com o brega porque ele é brutalmente honesto. Tem coisa mais triste que "saiba que o meu grande amor hoje vai se casar e mandou uma carta pra me avisar, deixou em pedaços o meu coração"? isso é brega porque o Reginaldo canta, agora Bethania cantando Zezé di Camargo e Luciano é chique... entende? Eu canto Garçom no meu show, a gente fez um arranjo bem lento, meio samba canção Dolores Duran, onde se pode realmente escutar a letra da música, que é super foda... e ninguém ri dessa música comigo cantando.

Filipe Catto, por e-mail.

Agradecemos primeiro ao Rodrigo Rudi por nos proporcionar o contato com o Catto, e ao próprio, pela entrevista, atenção, simpatia e paciência.

Para saber mais:
Site com EP para download

Myspace
Blog

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Entrevista com Nô Stopa



Lembro-me bem até hoje quando conheci a Nô Stopa. Achei o nome engraçado, as letras tão únicas, a melodia leve ("leve como uma pena leve"). O tempo passou e aqui estamos nós com uma belíssima entrevista com a querida Nô. Pra aqueles que já conhecem é bom pra desvendar um pouca essa figura tão ímpar e pra quem não conhece vale a pena ser modificado por suas canções.

Entrevista

01 - A música está na sua casa, na sua família, na sua vida desde o comecinho. Seu pai é o compositor mineiro Zé Geraldo e sua mãe tocava piano clássico. Teve e tem envolvimento com as artes circenses e dança. Gravou dois cd's (Camomila e distorção e Novo prático coração) e ainda tem um projeto com teatro de bonecos, circo e música infantil. É integrante da Banda Mirim, um grupo que vem chamando a atenção no meio do teatro musical. Ainda faz trabalhos extra-musicais com os grupos Pia Fraus (teatro de bonecos) e P.U.L.T.S. Teatro Coreográfico (dança). Ainda tempo nessa agenda lotada pra mais projetos?

(Nô) Atualmente estou envolvida em três projetos: meu trabalho autoral (acabo de lançar meu disco Novo Prático Coração), vou estrear um novo espetáculo com a Banda Mirim no início de junho e danço num grupo de dança contemporânea infantil chamado "Giz de Cena". Acho que é suficiente pra eu me realizar enquanto artista e conseguir criar meu filho. De vez enquando me arrisco numa coisa ou outra, por exemplo, no fim de maio realizei o sonho antigo de levar meu som pro picadeiro. Fizemos o show do Novo Prático Coração na Lona do Circo Roda (da Pia Fraus e dos Parlapatões), com intervenções de circo, teatro e dança. É um projeto que pretendo levar adiante.

02 - Algumas apresentações realizadas com O Teatro Mágico, que consegue (mesmo tendo um trabalho totalmente independente e de fácil acesso) um grupo bem diversificado e até ser divulgado na grande mídia. E ainda apresentações com a Roberta Campos, que vem crescendo nas rádios. Como lida com esse mercado mais independente e com quais nomes pretende ou deseja trabalhar?

(Nô)Ser independente hoje e conseguir sobreviver no mercado, é motivo de orgulho. A música independente está bastante diversificada, democrática e ganhando espaço na mídia cada vez mais.
Eu confesso que sofro um pouco com algumas portas que não se abrem.Mas estou fazendo a minha parte, trabalhando bastante e contando com amigos queridos e talentosos que sempre dão uma força.Gosto de trabalhar com quem gosta de trabalhar comigo, isso ocorre naturalmente, não sou de forçar a barra e não tenho idéia de quem estará comigo no próximo trabalho
.


03 - Sabemos que seu nome de registro é Aniela, agora queremos descobrir o motivo do seu nome artístico ser Nô Stopa.

(Nô)Quando nasci, minha irmã mais velha não conseguia falar Aniela e falava Noela, virei Nô desde o berço. Stopa é meu sobrenome por parte de mãe, italiano.

04 - Em 2004 lançou seu primeiro disco solo com selo próprio (Sol do meio-dia). Já são 6 anos de estrada, muitos admiradores, mas o grande público desconhece seu trabalho. A mídia tem excluido com frequência nomes primorosos do nosso cenário musical. Pretende ainda alcançar esse mercado ou pensa que o caminho é esse mesmo de manter-se com um público mais íntimo e fiel?

(Nô)Pretendo trabalhar e alcançar o que está reservado pra mim. A mídia tem diversas camadas, mas ainda estou muito abaixo da que gostaria de estar, e não quero me contentar com o que tenho hoje, minha batalha é pra crescer e ter condições dignas pra poder trabalhar.

05 - Versos simples, delicados, com sonoridade impecável acompanhada por sua voz aveludada. De onde tira tanta doçura mas que ainda assim carrega nas entrelinhas o amargor da vida de todo dia, a maturidade de uma mulher feita, contudo com ares de menina?

(Nô)Agora que sou mãe percebo muito esse contraste. A gente trabalha demais pra sustentar a família, bate a cara várias e várias vezes, mas tem que ter doçura e leveza pra encarar a vida. Pra criar um filho feliz, você tem que mostrar felicidade, quanto mais amor você dedica, mais você está fazendo do seu filho uma pessoa boa e linda. Essa lição eu busco aplicar em tudo o que faço.

06 - Assumir-se artista e querer viver da sua arte no país é muitas vezes difícil, tanto por questões financeiras quanto por questões comerciais, sociais etc. Já pensou em seguir outra carreira? Hoje em dia é possível viver só da música?

(Nô)Antes de compôr eu estudava Espostes na USP e pensava em ser técnica de Ginástica Olímpica, ao mesmo tempo em que ingressava num grupo de dança profissional, o PULTS. Depois da música, tranquei a faculdade e qualquer possibilidade que fazer outra coisa que não fosse arte. Fui pro circo, dancei no PULTS por alguns anos, me apresentei com a Pia Fraus, os Parlapatões, os Fractons, e hoje posso dizer que vivo de música, mas ainda não só do meu trabalho autoral.

07 - Quais são suas influências? Outras artes como cinema, literatura e artes plásticas também influenciam no seu som?

(Nô)Minha influência é o cotidiano, o ser humano, a rua, o rio... Posso ir ao cinema e voltar pra casa com vontade de compôr, não exatamente sobre o filme, mas a motivação veio dalí.O mesmo acontece com um show, uma balé ou uma exposição. Às vezes simplesmente acordar pode ser inspiração. E às vezes acho que nunca mais vou escrever nada, fico um tempão sem criar, mas é cíclico, como uma entressafra, uma respiração, depois volta.

08 - Quando os filhos são pequenos, o sonho normalmente é seguir a mesma carreira dos pais. Mas depois que crescem e entram na adolescência há o ímpeto de querer ser diferente ou pelo menos há dúvidas em relação ao que seguir. Você passou por essa fase de incertezas ou sempre soube o que quis? Conte-nos um pouco sobre seu começo de carreira.

(Nô)Achava que seria técnica de ginática olímpica, porque eu era atleta, apaixona pelo esporte, aí fui pro circo, pra dança, e depois veio a música. Nunca tive certeza de nada, as coisas foram se apresentando pra mim.


09 - Todo mundo que cria tem como xodó alguma coisa própria. Das músicas que já gravou, qual a que tem mais apreço e por quê?

(Nô)Não tenho uma predileta. Gosto muito da sonoridade do disco novo, mas tenho saudade da maneira de compôr do primeiro trabalho.

10 - Depois de anos de carreira é possível definir uma identidade musical para Nô Stopa, mas qualquer tentativa seria apenas um "achismo". Por você mesma, qual a identidade artística da Nô?

(Nô)Difícil. Eu me vejo entre o suave e o rock. Gosto da distorção, mas tenho voz pequena. Gosto de suavidade, mas tem que ser envenenado. Procuro esbarrar no folk, no pop e no rock, sem perder a brasilidade e a leveza. Quero também ter liberdade pra fazer o som que me der na telha, por isso acho que rotular não é legal.





Queríamos agradecer (eu e o Darlan) pela honra da entrevista. Pra quem quiser saber ainda mais sobre o trabalho da Nô é só conferir os links abaixo:

http://www.myspace.com/nostopa
http://tramavirtual.uol.com.br/artistas/no_stopa
http://www.lastfm.com.br/music/N%C3%B4+Stopa

sábado, 22 de maio de 2010

Entrevista com Wado



Essa semana trazemos a entrevista que eu e a Diana fizemos com o Wado. Cantor e compositor "alagoano" que já conhecemos há um tempo e gostamos bastante. De som diverso e singular, Wado mescla poesia de lirismo apurado com crítica social e experimentalismo bem sucedido. Antes da entrevista, vamos a um pequeno hitórico:

"No ano de 2001 Wado lança o seu primeiro CD e chama a atenção dos brasileiros para a nova safra de compositores que fazem “música inteligente”, como bem afirma o jornalista Pedro Alexandre Sanches em matéria para o jornal Folha de São Paulo.
Foi a partir deste trabalho que Wado começou a ser reconhecido e respeitado em outros estados do Brasil, figurou em muitas listas de disco como o melhor do ano. Alexandre Matias, não só colocou o Cd de Wado no topo de sua lista com também escreveu uma crítica com declarações sobre tal escolha, “e agora vem Wado, com seu excelente O Manifesto da Arte Periférica, até agora o melhor disco de 2001. Sai Daft Punk, sai Vídeo Hits - o lugar é deste catarinense radicado em Maceió que conseguiu fazer um disco com sotaque, mas sem soar pós-mangue beat."

Bora pra entrevista!

Desde o seu primeiro CD que você vem obtendo reconhecimento e sendo valorizado através de sua música, que é muito marcada pelo regionalismo até mesmo pelo seu sotaque forte. Alguns artistas que despontam fora do Sudeste do país e pretendem alcançar este mercado, tendem a afastarem-se das referências locais, ou ao menos atenuá-las. Depois de quase 10 anos de carreira percebemos que você ainda mantém-se alagoano, com seu sotaque e sua identidade regional, e ainda assim já alcançou outras praças fonográficas e fez shows pela Europa. É difícil levar seu trabalho a um público cada vez maior e globalizado e ainda assim manter a identidade e continuar autêntico?

No meu caso acho natural ser assim, e considero mais brasileiro que regional o pacote todo das coisas que faço, pois tem muito samba, afoxé e funk carioca nas músicas que ando fazendo. Esses ritmos tem matizes no Nordeste e também no Sudeste. Estou morando em Maceió então isso acentua ainda mais, pois isso e muito a vida diária aqui.


Apesar de acumular premiações, críticas elogiosas e de ter entrado na trilha sonora de Caminho das Índias, ainda não conseguimos te ver como um artista (re)conhecido pelo grande público e frequente em programas de TV com abrangência nacional. Isso gera alguma frustração ou o meio virtual junto dos artistas e do público da música alternativa satisfazem suas necessidades enquanto artista?

Teve momentos que já fiquei sim frustrado, mas isso era um desajuste de percepção minha, acho que a configuraçã da nova cena é essa mesmo, estou num dia a dia viável, aprendi a ser outras coisas além de músico/compositor e isso me fez bem. A vida está boa.


O apoio do governo federal através da Funarte e do Ministério da Cultura mudou o que na sua carreira no que se refere à visibilidade e e criação?

Ano passado foi um ano muito bom por causa disso, sem o Pixinguinha não tinha feito o Atlântico Negro, que me trouxe muitas coisas boas e shows pelo Brasil.


A Farsa do Samba Nublado é para muitos seu melhor CD. Pela qualidade sonora, técnica e até mesmo poética. É também o seu preferido ou tem algum outro xodó?

Meu preferido é o Terceiro Mundo Festivo, mas isso varia de tempos em tempos. Já foi o Cinema Auditivo por um tempo. Depende da época.


Outras artes como cinema, literatura e teatro influenciam na sua música? Se sim, o que mais te inspira? Percebemos também a natureza com uma presença marcante nas suas letras o quanto ela está presente nas suas composições e própria vida?

A vida toda inspira né, as canções brotam de temas, fatos e observações bem inusitadas. Moro numa cidade praiana, gosto de surfar, caminhar na praia, gosto de lugares verdes no frio quando viajo, isso tudo reflete acho pois compor é também uma atividade comtemplativa.


Sabemos que disponibiliza sua discografia completa pela internet. Como lida com esse meio tão abrangente e que não lhe rende lucro diretamente? E o que pensa a respeito das grandes gravadores e seus meios de comunicação em massa que de certa forma restringuem o grande mercado?

Faço isso como estratégia de mercado, acho natural esse fluxo, só torço pra que ele não seja tão voraz e unilateral. Com um Estado maduro e forte pode se ter um pouco mais de legislação e fiscalização, isso acho que é uma coisa pra gente lutar. É um pouco o que diz a canção Reforma Agrária do Ar.


Apesar da mídia ainda renegar o mercado independente ele vem crescendo e cativando público fiel. Com quais nomes desse cenário você trabalha ou prende, quais admira?

Gosto e tenho parcerias com Rômulo Fróes, Lucas Santanna, Momo, Zeca Baleiro, Numismata, Fino Coletivo, Fábio Góes. Acho uma geração muito boa essa minha e tem ainda mais um monte de gente.


Sua trilogia tá completa ( A farsa do samba nublado, Cinema auditivo, Manifesto da arte periférica). Planos pra um próximo projeto?

Esse ano vou fazer um cd/DVD de inéditas. Mas só pro segundo semestre. Será o sexto disco, poderíamos considerar duas trilogias :), nunca pensei assim, mas pode ser que até caiba.




Wado, via e-mail.

Para mais ionformações e para ouvir o som do cara, seguem os links:
http://www2.uol.com.br/wado/
http://www.lastfm.com.br/music/Wado
http://twitter.com/wado

Agradecemos e muito ao Wado pela gentileza em conceder a entrevista.
Abraço a todos!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Entrevista com Bruna Caram


Tempos atrás comecei a escutar um albúm de uma cantora ,até então desconhecida para mim, chamada Bruna Caram. Ouvi uma, ouvi duas e na terceira percebi que aquilo me encantava de uma forma diferente. Quando tocou Um blues não consegui mais parar de ouvir (e olha que essa nem é a música "de trabalho"). Joguei no google, ví clipes (maravilhosos diga-se de passagem), li entrevistas, depoimentos sobre ela, li um pouco da sua vida tão diversificada, tão aberta pra cultura em geral e tão aberta pros seus admiradores. Encontrei seu blog, onde conta sua vida, sua carreira, suas grandezes e miudezas de uma forma tão simples, tão gente de verdade. Aí (abusada mais uma vez) dei a cara a tapa e tentei uma entrevista, e não é que deu certo mais uma vez. Bem, agradeço a Bruna que desde o comecinho foi um doce de pessoa comigo sem nem ao menos me conhecer e a sua produção a Ana Paula Aschenbach, que também foi super atenciosa e atendeu o pedido da entrevista de forma super profissional sem deixar de ser agradável.
Espero que gostem e que seja prazeroso ler como foi pra mim fazer essa entrevista.

Entrevista

01- A música te acompanha desde o berço, com seus familiares, ocupa o ar da sua cidade natal (Avaré - SP), começou a carreira bem cedo e já com 19 anos lança seu primeiro Cd (Essa menina). Quase formada em Educação Musical pela UNESP. A voz e a biografia da Elis Regina mudou sua vida. Em qual ponto ou fato percebeu que a música era fundamental e inseparável da sua vida pessoal e profissional?

(Bruna Caram) - Acho que são duas coisas diferentes. Na minha vida pessoal, a música sempre foi fundamental. Em casa e na minha família, a maneira de a gente estar junto sempre foi cantando e tocando, todos os meus tios e primos estudaram piano e cantam bem, minha mãe foi professora de piano quando eu era menina, e meu avô paterno sempre fez memoráveis rodas de choro no quintal de casa, com os melhores músicos dessa área, e eu sempre os assisti, até o dia que resolvi me meter na roda e começar a cantar. Agora, quanto a ser cantora, é diferente. Resolver ser artista de fato é uma coisa séria, e uma responsabilidade. Basta pensar nos artistas que marcaram sua vida: eles mudaram seu jeito de pensar, de sentir, de ver as coisas, marcaram sua história, fizeram você sair de casa só para ouvi-los. Foi quando eu era adolescente, com uns 14 anos, que percebi, ao começar a estudar canto, que podia fazer algo para mu dar o que existisse ao redor. Minha professora na época, a Lucila Novaes, chorava na aula enquanto eu cantava. Foi quem me abriu os olhos, pensei: Aí tem coisa...


02 - Seu primeiro album foi lançado até no Japão. Apesar de ser seu primeiro trabalho teve uma boa repercussão. Qual foi sua reação ou espectativa com esse trabalho e qual foi o lugar mais inusitado ou inesperado que sua música alcançou?

(Bruna Caram) - Acho que o lugar mais inusitado foi o próprio Japão! (Risos) Que eu saiba, claro. Porque a música, ainda mais hoje, tem disso: voa e voa e vai pra cada lugar que a gente nem imagina... Isso é que é bonito. Não tive o privilégio de cantar no Japão, mas aqui no Brasil já vieram japoneses me assistir cantar por causa do sucesso lá. É inacreditável.


03 - Seu primeiro album tem como compositor principal Otávio Toledo, já o segundo tem uma grande mistura com nomes conhecidos (Lô Borges, Caetano Veloso,Guilherme Arantes) e nomes mais recentes ou não tão conhecidos (Pedro Altério,Dani Black).Você acredita que gravações de nomes mais conhecidos envolvem alguma tática comercial para maior aceitação do CD no mercado fonográfico? Qual sua pretensão pra um terceiro album?

(Bruna Caram) - No meu caso, de jeito nenhum. Nunca pensei em gravar o que ia vender mais fácil. Pensei, sim, em gravar o que as pessoas estão sentindo falta de ouvir. E eu acho que a novidade está mais em falta do que a repetição de sucessos que já foram. Por isso, das 25 músicas que já gravei, apenas 3 são de compositores conhecidos, e todas em versões bastante diferentes das originais. Como sou essencialmente intérprete, gosto de cantar os grandes nomes, mas gosto mais ainda de descobrir novos. Gosto dessa relação com o compositor, de vir em casa, de mostrar, que retocar, de deixar, de dar a música para você gravar. Isso é lindo. Agora, quanto ao terceiro álbum, não posso dizer nada, nem estou pensando nele ainda...

04 - O cenário musical independente tem crescido e sendo respeitado cada vez mais. Artistas enfrentam essa selva e merecem com louvor o lugar alcançado. Como você tem se mesclado com esse grupo e quais nomes pode nos indicar?

(Bruna Caram) - Tenho uma convivência muito grande com vários desses novos artistas que são apontados - inclusive dentre os compositores que gravei estão grandes amigos. Pedro Altério, Pedro Viáfora, Dani Black, Caê Rolfsen, Janaína Pereira (vocalista da banda de forró Bicho de Pé), os meninos do grupo Cinco a Seco, a Trupe Chá de Boldo, o Pitanga em Pé de Amora (do qual participei nos primeiros anos), esses paulistanos são meus irmãos e referências que posso indicar sem medo.

05- Bem, somos curiosos e queremos saber qual o significado dessa tattoo que você tem perto da nuca (e sim, temos 15 minutos pra escutar rs).

(Bruna Caram) - Hahahahahahaa!!!!! Já sabem de tudo!!! Vai lá: esta é uma margarida que desenhei simbolizando minha avó materna, Maria Margarida (que foi cantora de rádio na década de 50), e toda a minha família materna: a margarida tem oito pétalas - minha avó tem oito filhos -, de cada pétala sai uma nova pétala com pequenos pontinhos - que são os filhos que cada filho teve. Além disso, a margarida foi tatuada vista de cima, como que plantada no sangue, e o centro dela, o pólen, o círculo, simboliza meu avô, o centro seguro da família... Isso quer dizer que uns 25 primos, todos os meus tios, eu, meus irmãos, minha mãe e meus avós estão todos tatuados na minha nuca! (Risos) Estão até faltando uns pontinhos, pois mais primos nasceram.. Mas ao lado das pétalas da margarida tem um sinal de crescendo, indicando que essa família continua ascendendo...


06- Sabemos que você mistura todo tipo de arte na sua carreira(música,literatura, dança, teatro), qual tipo de ramificação artística você quer ou pretende se aprofundar mais por agora? E qual delas te auxilia mais namúsica?

(Bruna Caram) - Eu quero a variedade!!! O centro, evidentemente, é a música, e acho que sempre será. Continuo estudando canto, gostaria de voltar a estudar piano, tenho pego ultimamente o cavaquinho, quero lembrar o violão, o pandeiro... Mas tem também o teatro, que estudo, a dança (sapateado e balé clássico, a paixão da minha vida), a literatura... No meu show piano-e-voz, um trabalho paralelo e novo que venho fazendo, já tem textos declamados, trazendo o teatro e literatura para o palco juntos, o que é um antigo sonho meu. Pretendo declamar cada vez mais!


07 - Gostaria de fazer um dueto com qual ícone musical?

(Bruna Caram) - Tantos... Lenine, Milton, Zélia, Gil, Chico, Ney, Stevie wonder (hahahaha)...


08 - Em qual projeto está envolvida nesses últimos tempos e quais lugares pretende cantar?

(Bruna Caram) - Estou de corpo e alma no meu Feriado Pessoal e neste novo show piano e voz, que vem trazendo a possibilidade de, de fato, podermos tocar em qualquer lugar, em qualquer formato. Um é intimista, outro é extravasado, um é para poucas pessoas, outro pode ser para milhares, um tem estrutura enorme com cenário e produção, outro é mais simples. Agora temos show pra dar e vender! Quero esse ano levar meu trabalho pessoalmente para o Nordeste, coisa que nunca consegui fazer, e viajar muito pelo Brasil.


09 - Até que ponto suas criações sonoras são profissionais e quando elas passam essa barreira e se tornam autobiográficas?


(Bruna Caram) - O profissional não descarta o pessoal. Cada música que cantei ou canto, no palco ou em casa, é autobiográfica! Ser artista é deixar a alma exposta ao público, não ter vergonha nenhuma. Quando gargalho ou choro no palco, o que acontece sempre, é tudo verdade, não é "profissional", nem é apenas treinado. O treino, assim como a direção cênica (assinada pela Cris Ferri), são coisas feitas para tornar o show mais espontâneo, não mais duro ou estático. Meu treino é para obter o maior número de ferramentas possível na hora H, para mostrar a verdade, ainda que a áurea seja de fantasia. O que vem para o meu repertório são coisas que vivi. O apuro é profissional, mas a essência é autobiográfica.


Entrevista por DIANA.



http://www.brunacaram.com.br/
http://www.brunacaram.com.br/blog/
http://www.myspace.com/brunacaram
http://twitter.com/brunacaram
http://www.lastfm.com.br/music/Bruna+Caram

Agradecemos e muito a Bruna pela gentileza e disponibilidade em conceder a entrevista e pela simpatia. Mas acima de tudo, agradecemos por compartilhar com todo mundo o talento encantador!

sábado, 24 de abril de 2010

Lulina



Pelas minhas andanças pelo LastFM (sempre caçando sons novos) deparei-me com um perfil com uma descrição bem diferente. Lembro-me que tinha uma mistura de sangue de alien, minhocas e ironia. Uma grande mistureba de Olinda+SãoPaulo+infantil+ironia+vozlenta+palavrões= Lulina. Até agora não sei o motivo ao certo de ter ido atrás, de ter procurado, mas Cara, valeu a pena. Lulina tem uma coisa diferente, um jeito lentinho, um sotaque gostoso, uma cerveja gelada em cada esquina. Ouvi, ouvi algumas vezes. Procurei, pesquisei, vi vídeos, um rostinho com cara de São Paulo calmo. Eu muito abusada, dei cara à tapa e me aventurei a entrevistar essa moça via e-mail. E não é que deu certo! Vida corrida, tempo curto, mas taí ó. Leiam, ouçam Lulina, vejam o vídeo e entre no site dela e viajem pela Lulilândia. Mais que recomendo!

- Entrevista!

01 - As principais influências geográficas do seu som é Olinda (terra natal) e São Paulo (cidade que te abduziu). Hoje em dia qual das duas te impulsiona mais a criar?

(Lulina) - São Paulo, sem dúvida, porque é onde vivo e onde as coisas acontecem comigo, as coisas que me levam a refletir, contestar, me aperriar e a compor, hoje em dia.


02 - Suas canções são claramente autobiográgicas. Na sua infância jogando playmobil, as bolhas na pleura (doença real), sua avó, as gírias paulistanas entrando na sua vida. Em algum ponto compor como se fosse um diário da sua própria vida lhe causou algum problema, constrangimento ou fato curioso que possa nos contar?

(Lulina) - Até agora não causou nenhum constrangimento, mas me fez por muitos anos esconder esses disquinhos, justamente porque eu não queria me expor tanto (e não achava que pessoas além dos meus amigos se interessariam por isso). Foi muito aos poucos, quando me mudei para São Paulo, que comecei a perder a timidez, quando percebi que várias pessoas estavam interessadas em ouvir e me pediam para colocar na internet. Mesmo sendo muito autobiográfico, uma tática que uso para não me expor tanto na hora de compor é abusar de metáforas, ironias e de ficção científica. Minhas histórias reais estão misturadas com ficção, escondo em minhocas as minhas nóias com morte, tento tirar algum proveito das desgraças transformando-as em músicas às vezes até engraçadas, acho que esse é meu jeito de digerir o mundo.

03 - Luciana Lins, mais conhecida como Lulina, tem jeito de criaça, fala de sangue de et's, solta palavrões no meio da música, usa versos ácidos brincando, voz de sussurro, um pouco sonolenta,sotaque gostoso. Mas,é comparada com Fernanda Takai (vocalista do Pato Fu) por muitos na internet. Como lida com isso? E com quais outros ícones gostaria de ser lembrada pra inflar seu ego ou seu sorriso?

(Lulina) - A comparação com Fernanda Takai é normal, porque ela foi a única cantora com voz mais suave que estourou para a massa brasileira nos últimos anos. Todas as outras cantam com aquele mesmo estilo mais vozeirão. Já estou acostumada a essa comparação, tanto que no primeiro disco caseiro que eu gravei, em 2001, tiro um sarro disso: imito ela cantando, como se ela estivesse fazendo uma participação especial no meu disco. Mas a comparação com qualquer cantora vem muito mais das referências de cada um. Já fui comparada à Nara Leão (pelos que gostam de bossa e samba), já fui comparada à Frances McKee do Vaselines (pelos indies), à Rita Lee por causa da ironia, enfim, cada um compara com as referências que tem. Eu acho engraçado a mania do ser humano de classificar tudo ao redor, de catalogar o que existe, como se algo não pudesse existir sozinho. Acho que é um jeito que a turma encontra de se sentir confortável, em terreno seguro, associando tudo o que já existe para organizar melhor na cabeça. Eu não me incomodo com nenhuma comparação, para mim isso é elogio.

04 - Sua carreira começou com muitos EP'S (nove pra ser mais exata), feitos na sua casa, de forma bem artesanal. Sabemos que seu CD Cristalina tem esse nome exatamente por ser feito de forma mais "limpa" onde sua voz aparece melhor, sem os ruídos da forma caseira, do cachorro latindo e a vizinha tocando a campainha. Como tem sido a recepção do público? Ele tem crescido após o nascimento do CD? Ou simplesmente ter parido esse trabalho já lhe basta?

(Lulina) - A recepção foi muito melhor do que eu podia imaginar. Cristalina é um lançamento independente, por isso eu esperava muito pouco, já estava contente com a alegria de colocar um filho no mundo. Aí, vem um monte de crítica elogiando em várias revistas e jornais bacanas, gente que eu admiro elogiando, e isso me deixou feliz da vida. O público vem crescendo, o disco tem se espalhado pela internet, dois meses após o lançamento já tinhamos vendido 700 cópias e agora está esgotado, estamos prensando mais 1000. Cada vez mais surgem convites para shows em lugares legais, lotamos o Sesc Vila Mariana, enchemos o Sesc Pompéia, então eu acho que tem mais gente diferente querendo conhecer o som, o que é muito bom. Tô feliz demais com essa surpresa.

05 - Compositora compulsiva, alguns trabalhos com nomes improváveis, pessoas "comuns" até. Quais nomes gostaria de incluir nessa lista? (pode ser vivo ou morto, pode ser quem quiser, pode delirar)

(Lulina) - Eu não entendi direito essa pergunta, mas li a palavra “delirar”, então vou responder delirando. Vou responder com uma lista das pessoas e coisas que eu mais agradeço a Deus por existirem nesse mundo: Tom Zé, Lou Reed, minha família, He-man, Dostoievski, meus amigos, cervejinha, pão com manteiga, feriados, cama.

06 - Está soltando seu som fora do país, já. Quais seus planos futuros, mais concretos e bizarros, ousados e simples?

(Lulina) - Não faço planos com música. Vou me deixando levar. O que pintar de oportunidade (como foi nessa turnê recente pelos EUA, por exemplo), a gente agarra.

07 - Tudo te influencia nas suas letras, das coisinhas mais simples e delicadas (infância, bebidas, príncipes,criações de michocas, margarida) e as mais ácidas e toscas (et's, palavrões,pleura,fixação pelo 13). Então diga 13 coisas que te impulsionam mais a escrever, cantar ou continuar sendo a Lulina.

(Lulina) - Vou resumir as 13 em uma: a vida, desgraçada ou feliz. É o que se vive fora e dentro da cabeça que cria em mim essa necessidade de compor, seja para tentar entender as coisas, para celebrar, ou para não chorar.

08 - Sua música se espalhou de uma forma independente (apesar de ter seu primeiro disco de uma gravadora e talz). O cenário musical independente vem crescendo de forma monstruosa e surpreendente. Quais nomes você aprecia ou convive mais desse cenário? Quais ainda não gravou, mas pretende ou gostaria?

(Lulina) - Tem muita gente boa na música brasileira independente . Eu fico empolgada demais com a cena. Tem Cidadão Instigado (a banda que eu mais indiquei com orgulho para os gringos, quando estive em turnê nos EUA esse ano), Romulo Fróes (que além de grande compositor e cantor, é um dos caras mais dedicados a movimentar a cena, a fazer a coisa virar), Marcelo Jeneci (que está para lançar disco esse ano e que eu já tenho certeza que vai ser um dos melhores de 2010), Tulipa Ruiz (uma das vozes femininas com mais personalidade da cena atual, uma coisa linda), Karina Burh (disco fodão lançado recentemente), Bruno Morais (o menino poesia), Nina Becker (que tá para lançar disco duplo), Lucas Santtana, Isaar, Pullovers, Stela Campos , Tiê, Thiago Pethit, Wado, eu posso ficar a tarde toda listando e parece que isso não vai acabar nunca. É tanta gente boa que não existe mais essa coisa de 2 ou 3 ídolos/ícones na música. Tem espaço para todo mundo e todo mundo se ajuda. Dividimos músicos, dividimos palco e público, inventamos de compor juntos em mesas de bar. Muitos dessa lista eu convivo ou troco idéia de vez em quando, outros eu nem conheço pessoalmente, mas admiro muito. Torço para a coisa virar.

09 - Em que parte a Luciana (que trabalha com propaganda e mora em Sampa) interfere na vida, nas idéias e nos anseios da Lulina que vive na Lulilândia?

(Lulina) - Luciana interfere o tempo todo na vida de Lulina, principalmente quando tem passagem de som às 17h e ela não pode comparecer por causa do trabalho. Ao mesmo tempo que ela atrapalha, com sua rotina, a vida de Lulina, é também sua musa inspiradora, já que é dos aperreios e alegrias de Luciana que a Lulina tira seus temas para compor. Tô me sentindo um jogador de futebol falando assim, mas tá valendo.

10 - Por que a necessidade e/ou vontade de ser Lulina? De onde e como surgiu a cantora e compositora?

(Lulina) - Comecei a compor com uns 15 anos, mas só lá para os 22 eu arrisquei gravar disquinhos em casa e mostrar isso para os amigos. Tudo surgiu muito por acaso, por diversão. E acabei tomando gosto pela coisa e ela foi crescendo em importância na minha vida, a medida que os problemas ficaram maiores e minha necessidade de compor e sublimar sentimentos também. Já tive fases de só escrever, ou de só desenhar, sem compor. Respeito essas fases e vou fazendo o que curto no momento.




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http://lulina.blogspot.com/

Dá pra conhecer o trabalho dela de cabo a rabo. Obrigada Lulina pela simpatia e pelo som. Fiquei muito feliz em poder trazer seu trabalho pro nosso Varal.