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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Segunda Pele




O quinto CD de Roberta Sá afasta-se um pouco dos grandes sambas e prova um sabor mais regional em relação a sua própria origem. Apesar de buscar novos sabores o samba ainda se mantem presente como na faixa O nêgo e eu, com cores de carnaval, marchinhas clássicas. Parceria com Pedro Luís, mesclas inovadoras com a Orquestra Criôla de Humberto Araújo com arranjos ousados em relação aos seus CD's anteriores da própria Roberta. Tem ainda um dueto internacional,inédito com Jorge Drexler em “Esquirlas”, cantando em espanhol.

Desenrolar de um CD maduro, sensual, carnal de forma de harmônica, desmembrando de certa forma essa imagem de cantora um pouco recatada, fria e perfeccionista em certo ponto em suas apresentações. O CD por completo, mesmo as faixas mais intimistas, remetem a um grande carnaval, humano, carnal, quente. Recomendo! Está disponível AQUI.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Alessandra Leão

Pucos grupos brasileiros renderam quanto o Comadre Fulozinha. Para quem não liga uma nome ao outro, Comadre é o grupo de Karina Buhr e mais um monte de outras moças talentosíssimas que resolveram caminhar sozinhas depois de um tempo de estrada juntas. Uma delas é Alessandra Leão, de quem eu já deveria ter falado há muito tempo por aqui.

Alessandra Leão é percussionista, compositora e cantora. Iniciou sua carreira em 1997 com o grupo Comadre Fulozinha e atuou ao lado de músicos como Antônio Carlos Nóbrega, Siba, Silvério Pessoa, Zé Neguinho do Coco, Kimi Djabaté (Guiné Bissau), Florencia Bernales (Argentina), entre outros. Compôs em parceria com: Caçapa, Juliano Holanda, Chico César e Kiko Dinucci.

Em 2006, Alessandra deu início ao seu trabalho autoral, com o elogiado Brinquedo de Tambor, produzido e arranjado em parceria com o violeiro, compositor e arranjador Caçapa.

O projeto para o segundo CD solo, “Dois Cordões”, foi selecionado no Programa Petrobras Cultural e patrocinado pela Petrobras por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Produzido e arranjado por Caçapa e lançado em 2009, “Dois Cordões” conta com as participações de: Jorge Du Peixe (Nação Zumbi), Kiko Dinucci, Florencia Bernales (Argentina) e Victoria Sur (Colômbia).
Em seus dois CD's, Alessandra passeia por seu universo próprio de composições e também por importantíssimos compositores, como Biu Roque, que já foi gravado por grandes nomes da música brasileira, como Zeca Pagodinho e Roberta Sá, que fez o seu “Quando O Canto É Reza” somente com composições de Biu.

O seu som nos remete a também ótima Renata Rosa, que já comentei por aqui outras vezes. É folk brasileiro da melhor qualidade, com as inegáveis influências do outro lado do Atlântico. Alessandra se afasta da onda moderninha que mescla samba e MPB, fórmula muito utilizada pelas cantoras da atualidade. Seu canto é áspero e rico em influências tipicamente brasileiras e ancestralidade, dando um tom autêntico e encantador aos seus trabalhos.Imperdível!

Brinquedo de Tambor (2006) | Dois Cordões (2009) | MySpace |




segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

ZàZ


Como que banda começa?
Começa primeiro só no sentimento, em ensaios imaginários, em músicas em rodas, em algum canto pulsando. A ZàZ nasceu assim também, juntamente com muita amizade, noites intermináveis e pessoas com um pé na loucura e outro na sanidade.
“Elaborando autenticidades”, a atual formação tenta ao máximo trazer aquele ‘algo de novo’ que tanto precisamos. Um impulso, um rompante.


Se nota facilmente as letras deliciosamente construídas pelo compositor e também cantor Zeca Sales, as melodias que sambam nos dedos e soam nos violões de Isick Kauê e Luana caiube; a guitarra fervorosa de Danilo Sampaio; o som quem vem do baixo doce de Toti; o sorriso veloz da bateria de Gildésio e na percussão alegre de Emanuel Mancha e Gracyellen de Paula. No vocal, a voz grave e sutil de Zeca se soma a vitalidade de Luana Caiube e a beleza delicada da voz de Patrícia Lima. Com algumas músicas autorais já na bagagem, a Zàz hoje tenta trazer essa alegria inebriante que tanto buscamos, em tantos cantos e sons.
A Zàz começou no sentimento, e nele permanecerá…
A música sempre sai melhor assim.


Retirei o release lá da página da banda no LastFM. E é exatamente isso aí, um com com alegria comovente e nota doces. Conheci o trabalho deles a pouco mais de um mês e não consegui mais parar de ouvir. O material disponível para download infelizmente só são três músicas, mas que valem MUITO a pena ouvir. E com certeza vai dar vontade de ouvir mais e mais vezes. O som contagiante você encontra AQUI. É sem arrependimentos. Certamente, uma das minhas maiores descobertas musicais, são excelentes!

sábado, 26 de fevereiro de 2011

25 songs, 25 days #3

Day 03: A song that reminds you of one/both of your parents.

Então, uma música que lembre os meus pais nãio é tarefa muito fácil. Eu cresci ouvindo muita música e músicas diversas demais, tanto em casa quanto em restaurantes/bares/serestas/churrascarias. Sempre lembro d'eu, meu pai, mãe e irmã em algum lugar tomando guaraná Brahma e ouvindo músicas que naquela época já eram antigas, hoje em dia então, haha. Eu achava tudo muito brega e meio chato, mas gostava de sair de casa. Hoje eu gosto e sei cantar a maioria dessas músicas.

Tinha uma cantina mineira num bairro da cidade onde íamos com certa frequência e lá tocava um dupla caipira que eram os preferidos do meu pai, uma música que ele SEMPRE pedia era A Professorinha. Isso é até piada em família e é impossível não lembrar do meu pai ouvindo esses versos.



Uma música que lembre minha mãe não é assim tão fácil. Mamãe tinha todos os LP's do Roberto Carlos, então todas as músicas dele me lembram ela. Mas bem, a primeira lembrança que tenho ligando minha mãe a alguma música, é minha mãe fazendo os afazeres de casa ou mesmo ao meu lado cantando
"Mãezinha do Céu
eu não sei rezar
eu só sei dizer quero te amar.
Azul é seu manto
branco é seu véu
Mãezinha eu quero te ver lá no céu..."

Essa talvez seja a primeira música que aprendi a cantar, antes mesmo de saber falar direito. Maaaaas, como não há nenhuma versão legal de Mãezinha do Céu pelo Youtube... uma música que lembra MUITO minha mãe também é Mar de Rosas, do The Fevers, grupo que ela adora e que eu já vi até show com ela, assim como de outros grupos da Jovem Guarda. Sei cantar todas, não me julguem, haha.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Odó-Ìyá!

Dia 2de fevereiro, dia importante para o país inteiro, dia em que é comemorado nos candomblés como o de Iemanjá, sereia dona do mar. Dandalunda, Janaína, Princesa de Aiocá, Inaê, Sereia, Mucunã, Maria, Dona Iemanjá: em todas as suas denominações, em todos os dias do ano, salve a Mãe de todos os orixás.

Para começar, Bethânia, que dispensa apresentações, impecável

Fabiana Cozza, excelente cantora, voz abençoada e marcante saudando e cantando para Iemanjá

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Entrevista com Validuaté!

Há algum tempo atrás eu apresentei a banda Validuaté aqui no blog. Era um tempo de euforia pela descoberta. Apresentei a banda pra muita gente, fico feliz que muitos tenham gostado e cantado a plenos pulmões Eu Só Quero Acabar Com Você (risos). Tempos depois, volto a falar da banda para anunciar que finalmente, com todo mérito da Diana por ter conseguido, entrevistamos os caras da Validuaté. O resultado é extenso, mas vale a pena saber um pouco mais da banda, das influências e do som feito por eles. Feita por mim e pela Diana, o resultado está logo abaixo. Agradecemos desde já a eles pela disposição e gentileza. Bora lá!
Som diferente, interessante e inteligente que brota do Piauí, uma região onde as a grande massa de ouvintes não espera que vá sair um grupo desses. Talvez isso possa parecer preconceito, ou até mesmo ser, mas realmente as pessoas em geral não tem muitas informações sobre as novidades musicais de uma região tão esquecida do nosso país. Como vocês lidam com esse olhar? Consideram o som de vocês regional?
Quaresma – Realmente, ainda não temos uma referência musical no âmbito nacional que possa gerar essa expectativa. Talvez a memória nacional recupere figuras piauienses mais ligadas à literatura como Torquato Neto, que também atuava na música e no cinema, Assis Brasil, e Da Costa e Silva. Mas na música mesmo não há quem relacione nosso som, ou o que tem sido feito por aqui, a qualquer outro trabalho piauiense reconhecido Brasil a fora. De alguma maneira, nos anima chegar com alguma novidade, mesmo que tardiamente, embora eu não creia que seja tarde, já que penso nossa música como fruto dos dias de hoje. É resultado de nossas experiências com o que tem sido produzido no Brasil, principalmente, dos anos 80 pra cá, e também de algo de tempos mais remotos. Quanto ao termo “regional”, às vezes soa um tanto pejorativo quando generaliza demais. O que há de regionalismo na música que fazemos são as expressões que utilizamos nos textos, e remetem a situações do dia-a-dia. É regional porque nasce aqui, e de alguma maneira representa um pouco a produção atual, mas não é regional no sentido direto de justaposição temática ou alegórica de elementos que compõem a imagem do nordestino para o restante do país.

Thiago E – Ah, Diana, em nome de todos da Validuaté, primeiro digo obrigados... Pois é. Realmente, muitas e várias e incontáveis pessoas preconceituosas pelo Brasil não esperam grandes coisas do Piauí. Isso é tristíssimo. Até mesmo muitos dos habitantes deste estado duvidam do próprio talento. Acontece bastante de aparecer um trabalho artístico bem feito, bem produzido, esmerado e alguém dizer “olha que massa! nem parece que é daqui”. Repito: isso é soturnamente tristíssimo. E pouca gente percebe que essa atitude é um problema cultural. Quando digo “é um problema cultural” não estou falando de “falta de cultura” – absolutamente ninguém pode dizer isso do Piauí: somos muito ricos culturalmente. Quando digo “é um problema cultural”, falo sobre a falta de hábito de se interessar na produção cultural local. É um problema na educação e vem de longa e antiga data. Quem trabalha com música autoral em Teresina tem enormes dificuldades financeiras... E pouco, ou quase nada, consegue divulgar seu trabalho. E assim, a gente fecha um trágico ciclo: 1º) grande parte do público, por questões históricas e culturais, pouco se interessa pela música local; 2º) A maioria das casas de show, “prevendo” que não vão ter platéia suficiente para o seu almejado retorno financeiro, não contrata bandas locais; 3º) E o público, por ter pouquíssimo, ou nenhum, contato com o trabalho autoral de Teresina, não vai gostar do que não conhece. Mudar isso vai ser demorado e complicado. Eu reafirmo a expressão “música autoral” porque aqui, devido a esses problemas, as bandas cover’s são super valorizadas, logo, fazer música autoral é, antes de tudo, uma militância, uma postura política! Sem falar das rádios: contam-se nos dedos de uma mão as que nos apóiam. A Rádio pública Cultura FM 107.9 faz um trabalho importantíssimo na divulgação artística daqui. O pessoal da Cultura FM é bom e merece muitos elogios e todo o reconhecimento e respeito. E quanto a sermos “regionais” ou não... é bastante simples. O rock é a coluna das nossas músicas. Pelo menos por enquanto, sei lá, tudo pode mudar. Misturamos com samba, reggae, um pouquinho de baião... mas o eixo, o cerne, o cimento é o rock. O problema é que o termo “regional” ficou preconceituosamente ligado apenas ao nordeste. Se um grupo põe qualquer elemento de baião ou “forró” numa música, ele imediatamente é rotulado “regional”. Mas nunca vi um paulista misturar rock e xaxado e ser chamado de “regional”. Então é aquela história: todo rótulo é opressivo. Às vezes também ligam o termo “regional” a uma certa tentativa de “pureza” na música, de tentar deixar “intacta” alguma manifestação artística... A Validuaté nunca se preocupou com isso. E nem acho que isso exista. Na “mundo multidão mil”, primeira faixa do nosso disco “Pelos pátios partidos em festa”, é dito “os movimentos vários das culturas / porque deus é movimento e mistura”. Ninguém da Validuaté se considera “regional” nessa acepção. O Vazin, nosso guitarrista e geógrafo, diz que “regional” é quem vem de alguma região. Nesse sentido, somos regionais. Somos de um vale do até...

A Internet tem aberto muitas portas para a apresentação de bandas novas (ou até mesmo as que estão na estrada há algum tempo). Qual a pretensão do grupo quanto ao público? Grande mídia, meios de comunicação em massa ou grupos mais seletos?
Quaresma – Nossa intenção é atingir um público cada vez maior, fazer nossa música ser conhecida, e dar oportunidade às pessoas de dizer se gostam ou não do que fazemos. O bom de sermos independentes é a liberdade que temos de criar um trabalho do nosso jeito, sem pré-moldes impostos por quem quer que seja. Se houver oportunidade para mostrar esse trabalho para a grande mídia, chegaremos puros como nascemos. Há planos de organizarmos pequenas turnês para poder tocar para um público que nos conhece apenas pela Internet.

Thiago E – Nós tentamos explorar bem a Internet. Podemos ser encontrados no Myspace, no palco mp3, no twitter, na comunidade do orkut, no nosso blog, no nosso site, no youtube... e, ainda bem, em vários espaços de outras pessoas que gostam e acompanham a produção da banda. Nós estamos nos organizando pra fazer mais viagens e tentar divulgar a Validuaté num âmbito nacional. Onde pudermos nos apresentar de uma maneira interessante, estaremos lá. Não gostamos dessa coisa de “grupos seletos”. Pra gente isso não existe. Isso seria o próprio artista se mistificar, se achar superior a alguém. Isso é besteira. John Well, Júnior, Wagner, Quaresma, Vazin fazem a Validuaté ter uma força agregadora que é fundamental pra todos nós. Perder isso seria perder tudo.

Músicas como Ela é, Plaina Maravalha, Eu só quero acabar com você, Essa moça, Eu preciso é de você (regravação da Jovem Guarda) são letras que visões diferentes sobre as mulheres. As primeiras mostram o lado "devorador de corações" que as mulheres podem ter, as últimas demonstram como os homens podem se perder e depender delas. Como vocês realmente lidam com esse universo e como instiga suas criações musicais?
Thiago E – A gente lida tranqüilamente... A banda não privilegia esse tema, isto é: não temos mais cuidado ou menos atenção quando estamos fazendo uma canção sobre “uma mulher” do que quando estamos compondo uma canção sobre outro assunto – “o céu”, “um peixe”, “a orelha da Maria Bethânia”, “o amor”, “o mar”... Nos empolgamos com o arranjo bem feito. Não temos essa de “um tema especial”. Um dos “baratos” da arte é tentarmos tornar qualquer assunto especial. Seja na música, na pintura, na poesia, na prosa... a arte tá aí pra isso: pra instigar um desafio na cabeça de quem vê e de quem cria. Alguém pode querer fazer uma canção sobre o amor e cantar “o amor que sinto é uma lâmpada fluorescente...”, aí o compositor tem de se virar pra dizer por que o amor é uma lâmpada fluorescente! (risos). O Torquato Neto diz “é inventar dificuldades pelo menos maiores”. (risos). Obviamente a figura feminina nos encanta. É só observar as duas capas dos nossos dois discos. O “pelos pátios partidos em festa” e o “alegria girar” trazem uma mulher em cada imagem. Porém, quando a mulher é uma personagem na música, trato com o mesmo alumbramento de quem percebe o mar pela primeira vez e diz “o mar rumina a terra o tempo todo”. Pra mim não é fácil, não é comum compor canção tratando do envolvimento amoroso, de romance... Acabo tratando mais de “coisas” ou histórias mais irônicas. É algo normal no meu comportamento. Já o Quaresma faz músicas sobre relacionamentos com uma naturalidade e um aprumo que invejo. O Quaresma é bom nisso. Ainda bem que ele tá por aqui.

Quaresma – Criar canções para mim é um exercício de representação da realidade, mesmo que seja uma realidade reinventada, ou pura ficção. A música pop, de modo geral, é construída em torno de algumas temáticas recorrentes: paixão/amor, abandono, solidão, admiração, desejo, etc. A maneira como se utiliza uma temática ou outra pode gerar as mais diversas impressões no público, das quais a surpresa é sempre a melhor. As nossas “canções de amor” não dizem “eu te amo”. É um exercício muito prazeroso, principalmente quando temos uma aceitação tão boa do público.

O cenário independente vem crescendo de forma meteórica e diversificada. Como lidam com esse mercado? Quais nomes podem nos indicar? Com quais gostaria de tocar, compor? E até mesmo os mais famosos, quais lhe enchem os olhos?
Quaresma – É um mercado que parece muito convidativo e desafiador. Parece haver lugar para todos quando vemos as ferramentas à nossa disposição. Ao mesmo tempo parece que fica muito a cargo de cada um. Algo do tipo “às próprias custas s/a”, e atuar em diferentes setores da cadeia produtiva da música se torna algo fundamental para compreender o funcionamento do mercado de antes, e do que tempos agora. A Internet é nosso grande aliado na divulgação do trabalho da banda bem como na formação de nosso público Brasil afora. Um dos melhores exemplos de banda que tira todo o proveito da Internet para divulgação e interação com o público é a brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. Considero os meninos do Móveis um modelo de organização. Creio que cada músico da banda até imagine grandes artistas participando de alguma gravação ou show nosso. Acho que isso tem mais a ver com a essência de cada música. Por afinidade e admiração, seria uma honra poder tocar/compor algo com Céu, Nação Zumbi, Arnaldo Antunes, Tom Zé, André Abujamra, Moska, Adriana Calcanhoto, Lenine, Vitor Ramil etc.

Thiago E – Olha, somos uma banda como tantas milhares de outras bandas pelo Brasil: adoramos o que fazemos e buscamos nos manter apresentando nosso trabalho. Esse é o objetivo de milhares de bandas. O mercado é inflacionado e não há espaço pra todo mundo. A verdade é essa. Não cultivamos ilusões. Eu até brinco parafraseando uma frase do Stanislaw Ponte Preta: “Validuaté: despontando para o anonimato” (risos). Não sabemos se conseguiremos tocar, gravar mais discos e nos manter com a música... Ou se seremos mais um grupo sufocado pela dificuldade e pela falta de recursos. Tudo é incerto. O que sabemos é que viver de música autoral por aqui é fazer um milagre. Como não temos o dom de fazer milagre, resta-nos tentar também outras paisagens. É como diz outra do Stanislaw “quem quer ser artista tem de carregar o circo nas costas”. Várias bandas e músicos daqui têm um trabalho autoral interessante: Clínica Tobias Blues, Obtus, Roque Moreira, Fragmentos de Metrópole, Eucapiau, Teófilo, Eita Piula, Batuque Elétrico, Captamata, Maykel Francis, Joniel Veras... entre outros grupos e músicos. As produções estão acontecendo... Como todo mundo, a gente da Validuaté admira muitos artistas. Também tocamos algumas músicas de quem admiramos: Tom Zé, André Abujamra, Arnaldo Antunes, Márcio Greyck... Se, no futuro, formos parceiros de um deles já vai tá bom demais! Mas já conseguimos alguns encontros maravilhosos. No disco “Alegria Girar”, contamos com a participação do poeta Ferreira Gullar, do cantor, compositor e ator Lirinha, do ator e dublador Isaac Bardavid e do ator, cantor e compositor Zéu Britto. Pra gente foi-é-e-será uma felicidade!

Dois CD's, alguns clipes soltos na Internet e um bom número de admiradores fiéis, planos pra um próximo projeto? Tocar nas grandes capitais?
Quaresma - Está em nossos planos, antes de gravarmos um disco que encerra a trilogia doa álbuns em estúdio, produzir um DVD com repertório dos dois primeiros trabalhos e mais algumas músicas inéditas. Além de participações especiais. Paralelo a isso, vamos organizar pequenas temporadas por outras capitais e outras regiões do país. Alimentar nosso público que nos acompanha tão somente pela Internet. Tudo com calma e planejamento.

Vemos em comunidades do orkut e do Last.FM que grande parte do público da banda é feminino e se derretem todas pelas músicas e por vocês. Pois então, há assédio nos shows? Como os compromissados lidam?
Thiago E – Isso é tranqüilo. A maioria da banda é compromissada e há respeito. Obviamente existe aquela coisa do fetiche do palco e tal, mas não dou importância pra isso. Aliás, qualquer pessoa sã que nos observe concluirá que não temos atrativos físicos (risos). Vez por outra ouvimos comentários “rapaz, a Validuaté... Ô banda pra ter cabôcos fêi, menino! Os cara até tocam bem... mas, ali, num escapa um!!” (risos!) Pois é. Eu só defendo o Wagner. Só o Wagner é bonito! É nosso Ébano, nosso precioso, nosso Orfeu Negro! (risos!)

Quaresma – (risos, risos) O assédio acontece, mas não é nada escandaloso que nos force a correr pelos corredores ou chegar por alguma porta secreta. Todo o encantamento acontece enquanto estamos sobre o palco. Quando a gente desce, sempre tem alguém que aborda para parabenizar, perguntar por que não tocamos música tal e tal, ou mesmo só para dar um abraço. As respectivas namoradas de cada músico da banda são bem pacientes com esse assédio. Mesmo porque depois do show a gente parece que volta à forma de abóbora (risos).

Para os mais simplistas e/ou para as massas, ao ouvir o som de vocês podem, equivocadamente, achar o som de vocês semelhante demais com outras bandas fora do eixo RJ - MG - SP, como Cordel do Fogo Encantado ou até mesmo Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. Vocês lidam bem com essas comparações ou procuram se afastar cada vez mais delas?
Thiago E – São bandas de um som maravilhoso e as admiro. Realmente, já nos compararam com o Cordel e com o Mundo Livre. Mas, sinceramente, não vejo grandes semelhanças... quase nenhuma. A Validuaté mistura um pouco de poesia às suas práticas e tal... o que poderia nos aproximar do Cordel... Mas o nosso som é muito diferente, trabalhamos com esses elementos de forma diversa. O formato de banda e os timbres não têm nada a ver! Poderiam nos aproximar do Mundo Livre pelo uso do cavaquinho no rock e tal... mas é a mesma razão: misturamos esses elementos de maneira diversificada. Nossa escrita é outra, nossas melodias são outras, nossa pegada é outra. Se nos comparássemos ao Nação Zumbi, eu também só poderia receber como um elogio – eles são fantásticos – mas iria aconselhar essa pessoa a fazer uma avaliação psíquica o quanto antes. Gostaria que as pessoas olhassem pra Validuaté como Validuaté mesmo. Por mais que te comparem com nomes importantes, todo mundo quer ser o que é mesmo.

Comparando Pelos Pátios Partidos em Festa e Alegria Girar, notamos que o segundo é um álbum mais maduro, letras e som mais elaborado, são músicas mais fáceis de ficar na cabeça (até minha mãe anda cantando Eu Só Quero Acabar Com Você, haha), um outro padrão. Pois então, quais experiências a banda acumulou entre um trabalho e outro e o que poderia explicar a mudança?
Thiago E – O “Pelos pátios partidos em festa” é primeiro cd. Tem os atropelos e as delícias de toda primeira vez. Quando o gravamos passamos por uma série de problemas. Alguns por inexperiência e outros de ordem do acaso da vida mesmo, dos rumos que tudo toma. Houve um pouco de pressa, por falta de informação também tivemos pouco cuidado com a captação dos sons na gravação, a escolha do estúdio, os horários no estúdio eram ruins, etc, etc, etc. Uma série de fatores. Hoje, nos incomodamos com a qualidade técnica da gravação... e talvez o público, sem perceber, se incomode também com o áudio... Mas nós adoramos as canções do “Pelos pátios partidos em festa” e temos planos para melhorá-las: quem viver verá (risos). Já o “Alegria girar” foi feito com um cuidado bem maior. Não queríamos repetir as inexperiências do primeiro. Pesquisamos, nos empenhamos e também tivemos a sorte de trabalhar com engenheiro de áudio Mike Soares. Com os toques dele mudamos bastante. O grupo tava coeso. Mas, sobre esse percurso todo, é bom ser observado uma coisa... Não podíamos ficar esperaaando uma situação ideal aparecer. Queríamos fazer, mesmo aos trancos e solavancos... falta de aparato técnico não significará inércia criativa...

Conte-nos um pouco sobre o início da banda e o que cada um trouxe como bagagem para formar esse som tão diverso.
Thiago E – A Validuaté surgiu em 2004 e permanece, praticamente, com a mesma formação: John Well na bateria recarregável de longa duração, Vazin e Júnior nas guitarras, eu toco pandeiro e cavaquinho, Wagner Costa no contrabaixo e Quaresma na voz e instrumentos adicionais. Como todo grupo, temos semelhanças e diferenças e sempre procuramos respeitar os desejos uns dos outros. O John Well tocava música gospel na igreja e dá aulas de bateria; o Vazin participava da cena metal, cantava em coral também e dá aulas de geografia; eu tocava sambas e pagodes naquela onda dos anos 90, depois me interessei por rock, poesia e dou aulas de literatura; o Wagner tocava música instrumental, em banda de pop rock, canta num grupo vocal e faz mestrado em literatura; o Júnior tocava música pop e é gerente do bar Recanto do Caranguejo; o Quaresma sempre cantou, é professor de inglês e português e também é publicitário. Então temos uma diversidade boa. Cada um acrescenta unicamente e funciona. O grupo é bom. O que nos une é nossa tolerância e nosso extraordinário senso de humor. (risos!)

Quaresma – O bacana do grupo é a pré-disposição pela busca do novo, de experimentar os detalhes de algo desconhecido. Antes da Validuaté eu tocava MPB com o Júnior. Aquele repertório de churrascaria mesmo. Mas desde sempre eu quis construir algo novo. Até chegamos a participar de festivais com as músicas que já nasciam naquela época. Isso rendia uma ou duas apresentações por ano com duas ou três músicas próprias. O grupo se chamava Papel di Parede. O difícil era inserir esse novo num contexto em que a música serve para ajudar o pedaço de carne descer com um gole de cerveja. Foi aí que desistimos de tocar música com cheiro de picanha e decidimos criar uma nova história. E nasceu a Validuaté.

Mesmo em letras sérias, é possível notar doses de humor, fazendo com que estas flertem com músicas ditas "bregas", brincando com uma linha bem sutil entre o romântico e o brega. Há receios quanto a isso ou o som que vocês fazem é puramente passional, sem preocupações de estilo?
Thiago E – É como eu disse anteriormente: não nos preocupa evitar nem permanecer. Exploramos o som dito “brega” ou “romântico”. E quando criamos algo nesse gênero, sabemos o que estamos fazendo e quem nos escuta também sabe. É como se fosse um ato, ou uma parte de um espetáculo que tem partes diferentes. Isto é: não ficamos no “brega” o tempo inteiro, todos sabemos que logo acontecerá algo novo. Não há receio quanto a essa classificação. De certa forma, é um momento em que há um sarcasmo de nossa parte com essa enxurrada de músicas, no rádio ou na TV, falando desse amor meloso.

Quaresma – Colocamos muito de paixão também no que fazemos. O traço brega de algumas de nossas músicas passa também pela via do humor. Um dor sofrida que precede o riso de quem vê graça nas relações amorosas.

Vemos ultimamente que as bandas têm uma vida efêmera. GRAM, Los Hermanos, Cordel do Fogo Encantado e tantas outras declararam o fim ou então uma "pausa por tempo indeterminado". Podemos esperar vida longa a Validuaté? Quais são os planos e projetos da banda atualmente?
Thiago E – Olha, eu não sei se essas bandas tiveram essa “vida efêmera”. Não conheço o GRAM. Mas o Cordel do Fogo Encantado e o Los Hermanos duraram o tempo que quiseram durar. Foi algo acordado. Nenhuma tragédia aconteceu pra impedi-los de produzir e tal. Eles podem, inclusive, voltar. Mas, para além das músicas, existe a convivência. E essa, às vezes, é melindrosa: juntar pra dar certo os desejos e os comportamentos de várias pessoas é cheio de pregas e complexo e é preciso sabe-se lá o quê... Quando a gente gosta de um grupo que se acaba, ficamos um pouco pra baixo, etc. Porém é um sentimento pessoal e cabe a cada um resolvê-lo da sua forma. E as pessoas dizem “mas, por quê?” etc. Contudo, quem sabe da pedra é quem calça o sapato. Nesse contexto musical, as coisas duram o que tem de durar. Tem de ser respeitado. Obviamente a Validuaté deseja essa vida longa. Estamos ávidos pra nascer e começar em outros lugares e renascer e recomeçar num devir incessante. Tomara que dê certo. A cada tempo que passa aprumamos artes novas e queremos vivê-las com outras pessoas. Temos o espírito musculoso. Contudo, a vida é essa sucessão de acidentes imprevisíveis. Torço pra que tenhamos acidentes felizes, espantos bons. O Vinícius nos avisa: “que seja infinito enquanto dure”. Tomara que esse “enquanto dure” seja um pedação do tempo.

Quaresma – Vida longa à Validuaté. Cenas dos próximos capítulos: viagens, DVD, viagens, clipes, viagens, 3° CD, clipes, viagens, viagens... fortes abraços para todos e até breve!

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O folk autóctone


Não sei precisar há quanto tempo Renata Rosa passou a fazer parte da minha playlist, mas sei que de lá pra cá nunca mais consegui me esquecer dessa voz cristalina e imponente.

Nascida em São Paulo em 1973, além de cantora é atriz, pesquisadora, compositora e poetisa. Sua obra está intimamente ligada com a cultura da Zona da Mata Pernambucana, aglutinando de maneira muito ímpar e brilhante elementos do coco, dos xangôs, das cirandas, da música índigena e também ibérica. O resultado é música brasileira simples e da melhor qualidade.

Sua discografia é composta por dois CD's: Zunido da Mata (2002) e Manto dos Sonhos (2008), ambos regionalistas sem deixarem de ser multiculturais, tendo o som da rebeca como acompanhamento para a maioria das faixas, tocada pela própria Renata.

Desde 2003 já se apresentou quase 200 vezes pela Europa e Estados Unidos, conquistando prestígio e prêmios importantíssimos, como o Choc de l' Année 2004 (Le Monde de la Musique), prêmio máximo da crítica francesa.

Em Manto dos Sonhos encontramos a artista naturalmente mais madura, mas mantendo suas influências e reafirmando sua alma nordestina. Neste segundo trabalho encontramos canções mais melodiosas, com lirismo mais acentuado, como em Morena.

São CDs que revelam um Brasil muito particular e encantador, que todos deveriam conhecer e decifrar, pois são da nossa raiz, elementos formadores da nossa identidade cultural. É um batuque do bom, imperdível!

Experimente aqui: Zunido da Mata (2002) e Manto dos Sonhos (2008)

Acesse também: Site Oficial e MySpace.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Festa da Menina Morta (2008)

Há algum tempo já eu e a Diana vínhamos pensando em escrever juntos sobre esse filme tão singular, mas acabávamos adiando, até que essa semana esse texto a quatro mãos tomou vida. Bora lá então!O filme nasceu com uma expectativa enorme por o Matheus Nachtergaele ser o diretor, seu primeiro longa-metragem. Diferente do entediante Feliz Natal, estréia de Selton Melo como diretor, A Festa da Menina Morta empolga e faz-nos criar expectativas no que ainda estar por vir.

Com roteiro de Matheus e Hilton Lacerda, o filme retrata a vida de uma população ribeirinha do alto Amazonas, onde há vinte anos o menino Santinho (Daniel de Oliveira) recebeu em suas mãos, da boca de um cachorro, os trapos do vestido de uma menina desaparecida. Ela jamais foi encontrada. O vestido virou coisa sagrada. Desde então se celebra a tal a Festa da Menina Morta, quando, no ápice da festa cerimonial, a menina manifesta por meio de Santinho, as revelações para o ano que virá.

A figura afetada do Santinho, cheio de vontades e que se afoga no próprio ego dá sustentação para todo povo da cidade e região. Gente pouco instruída, mas com muita fé, por ser a fé o bem maior que possuem. A mesma cidade que se ajoelha e beija os pés do Santinho, pede graças, faz do dia da Festa da Menina Morta um evento onde a essência religiosa é perdida e entra os costumes pagãos, como a barraquinha de churrasco com cerveja e cachaça, a dança e a diversão.

Este é um filme de grandes interpretações, com destaque especial para Daniel Oliveira, supracitado, e o pouco conhecido Juliano Cazarré (Tadeu), que dá vida a um dos personagens mais dramáticos e complexos da história, o irmão da menina morta, que sofre com o drama de perdê-la e ver um circo armado em torno da fatalidade.

De modo até mesmo um pouco cruel, o roteiro nos mostra como é fácil a mitificação de um ato banal, onde um povo que vive numa terra remota e esquecida pelos seus compatriotas e quem sabe até por Deus. Um povo de tantas carências encontra força na fé, por mais absurda que essa fé possa parecer aos olhos estrangeiros. Portanto, este não é um filme sobre ocultismo ou sobre cultura popular, é um filme sobre comportamento, construção de identidade social. As cenas são arrastadas, por a vida lá ser assim. A câmera foca cenas numa tentativa de compreensão.Alguns dizem que é um filme arrastado, entediante, frustrante e em certos pontos com cenas desnecessárias e grotescas. Creio que as pessoas lançaram o mesmo olhar frio que o filme lança pra pessoas que o assistem. Não há como querer assistir A festa da Menina Morta e querer sair ileso ou encontrar uma história regionalista bonitinha e nada mais. Por vezes, há um exagero sim, mas é bonito de se ver, perturbador, dúbio, provocante, humilde e imperdível!

Mais motivos pra ver A Festa da Menina Morta:

- A interpretação da Cássia Kiss é excelente. Ela não precisa de falas, de grandes cenas, de nada. Ela dialoga com os olhos e isso basta. A cena na qual ela canta Io Che Amo Aolo Te é deslumbrante. Ela só precisou da própria voz, a luz certa, água pra lavar os cabelos e aqueles olhos que dizem tudo. Mas não só por ela, é admirável e comovente ver um elenco inteiro entregue aos seus personagens doentes barrocos, absurdamente humanos;

- Daniel de Oliveira que se propõe a um personagem que segura toda a história e faz do enredo algo ímpar. Há entrega total, um ator sem vaidade, a serviço de sua arte. Faz de Santinho alguém real, palpável, asqueroso e ao mesmo tempo cativante;

- É desagradável, tem cenas que incomodam, tem o tempo que faz contorcer na cadeira. A intenção é incomodar, te fazer ficar 3 dias depois ainda pensando no filme;

- A fotografia de Lula Carvalho é um deleite à parte. Lembra a estética de Amarelo Manga e Baixio das Bestas, do cineasta Cláudio Assis, ídolo declarado de Matheus Nachtergaele.

sábado, 22 de maio de 2010

Entrevista com Wado



Essa semana trazemos a entrevista que eu e a Diana fizemos com o Wado. Cantor e compositor "alagoano" que já conhecemos há um tempo e gostamos bastante. De som diverso e singular, Wado mescla poesia de lirismo apurado com crítica social e experimentalismo bem sucedido. Antes da entrevista, vamos a um pequeno hitórico:

"No ano de 2001 Wado lança o seu primeiro CD e chama a atenção dos brasileiros para a nova safra de compositores que fazem “música inteligente”, como bem afirma o jornalista Pedro Alexandre Sanches em matéria para o jornal Folha de São Paulo.
Foi a partir deste trabalho que Wado começou a ser reconhecido e respeitado em outros estados do Brasil, figurou em muitas listas de disco como o melhor do ano. Alexandre Matias, não só colocou o Cd de Wado no topo de sua lista com também escreveu uma crítica com declarações sobre tal escolha, “e agora vem Wado, com seu excelente O Manifesto da Arte Periférica, até agora o melhor disco de 2001. Sai Daft Punk, sai Vídeo Hits - o lugar é deste catarinense radicado em Maceió que conseguiu fazer um disco com sotaque, mas sem soar pós-mangue beat."

Bora pra entrevista!

Desde o seu primeiro CD que você vem obtendo reconhecimento e sendo valorizado através de sua música, que é muito marcada pelo regionalismo até mesmo pelo seu sotaque forte. Alguns artistas que despontam fora do Sudeste do país e pretendem alcançar este mercado, tendem a afastarem-se das referências locais, ou ao menos atenuá-las. Depois de quase 10 anos de carreira percebemos que você ainda mantém-se alagoano, com seu sotaque e sua identidade regional, e ainda assim já alcançou outras praças fonográficas e fez shows pela Europa. É difícil levar seu trabalho a um público cada vez maior e globalizado e ainda assim manter a identidade e continuar autêntico?

No meu caso acho natural ser assim, e considero mais brasileiro que regional o pacote todo das coisas que faço, pois tem muito samba, afoxé e funk carioca nas músicas que ando fazendo. Esses ritmos tem matizes no Nordeste e também no Sudeste. Estou morando em Maceió então isso acentua ainda mais, pois isso e muito a vida diária aqui.


Apesar de acumular premiações, críticas elogiosas e de ter entrado na trilha sonora de Caminho das Índias, ainda não conseguimos te ver como um artista (re)conhecido pelo grande público e frequente em programas de TV com abrangência nacional. Isso gera alguma frustração ou o meio virtual junto dos artistas e do público da música alternativa satisfazem suas necessidades enquanto artista?

Teve momentos que já fiquei sim frustrado, mas isso era um desajuste de percepção minha, acho que a configuraçã da nova cena é essa mesmo, estou num dia a dia viável, aprendi a ser outras coisas além de músico/compositor e isso me fez bem. A vida está boa.


O apoio do governo federal através da Funarte e do Ministério da Cultura mudou o que na sua carreira no que se refere à visibilidade e e criação?

Ano passado foi um ano muito bom por causa disso, sem o Pixinguinha não tinha feito o Atlântico Negro, que me trouxe muitas coisas boas e shows pelo Brasil.


A Farsa do Samba Nublado é para muitos seu melhor CD. Pela qualidade sonora, técnica e até mesmo poética. É também o seu preferido ou tem algum outro xodó?

Meu preferido é o Terceiro Mundo Festivo, mas isso varia de tempos em tempos. Já foi o Cinema Auditivo por um tempo. Depende da época.


Outras artes como cinema, literatura e teatro influenciam na sua música? Se sim, o que mais te inspira? Percebemos também a natureza com uma presença marcante nas suas letras o quanto ela está presente nas suas composições e própria vida?

A vida toda inspira né, as canções brotam de temas, fatos e observações bem inusitadas. Moro numa cidade praiana, gosto de surfar, caminhar na praia, gosto de lugares verdes no frio quando viajo, isso tudo reflete acho pois compor é também uma atividade comtemplativa.


Sabemos que disponibiliza sua discografia completa pela internet. Como lida com esse meio tão abrangente e que não lhe rende lucro diretamente? E o que pensa a respeito das grandes gravadores e seus meios de comunicação em massa que de certa forma restringuem o grande mercado?

Faço isso como estratégia de mercado, acho natural esse fluxo, só torço pra que ele não seja tão voraz e unilateral. Com um Estado maduro e forte pode se ter um pouco mais de legislação e fiscalização, isso acho que é uma coisa pra gente lutar. É um pouco o que diz a canção Reforma Agrária do Ar.


Apesar da mídia ainda renegar o mercado independente ele vem crescendo e cativando público fiel. Com quais nomes desse cenário você trabalha ou prende, quais admira?

Gosto e tenho parcerias com Rômulo Fróes, Lucas Santanna, Momo, Zeca Baleiro, Numismata, Fino Coletivo, Fábio Góes. Acho uma geração muito boa essa minha e tem ainda mais um monte de gente.


Sua trilogia tá completa ( A farsa do samba nublado, Cinema auditivo, Manifesto da arte periférica). Planos pra um próximo projeto?

Esse ano vou fazer um cd/DVD de inéditas. Mas só pro segundo semestre. Será o sexto disco, poderíamos considerar duas trilogias :), nunca pensei assim, mas pode ser que até caiba.




Wado, via e-mail.

Para mais ionformações e para ouvir o som do cara, seguem os links:
http://www2.uol.com.br/wado/
http://www.lastfm.com.br/music/Wado
http://twitter.com/wado

Agradecemos e muito ao Wado pela gentileza em conceder a entrevista.
Abraço a todos!

sábado, 24 de abril de 2010

Lulina



Pelas minhas andanças pelo LastFM (sempre caçando sons novos) deparei-me com um perfil com uma descrição bem diferente. Lembro-me que tinha uma mistura de sangue de alien, minhocas e ironia. Uma grande mistureba de Olinda+SãoPaulo+infantil+ironia+vozlenta+palavrões= Lulina. Até agora não sei o motivo ao certo de ter ido atrás, de ter procurado, mas Cara, valeu a pena. Lulina tem uma coisa diferente, um jeito lentinho, um sotaque gostoso, uma cerveja gelada em cada esquina. Ouvi, ouvi algumas vezes. Procurei, pesquisei, vi vídeos, um rostinho com cara de São Paulo calmo. Eu muito abusada, dei cara à tapa e me aventurei a entrevistar essa moça via e-mail. E não é que deu certo! Vida corrida, tempo curto, mas taí ó. Leiam, ouçam Lulina, vejam o vídeo e entre no site dela e viajem pela Lulilândia. Mais que recomendo!

- Entrevista!

01 - As principais influências geográficas do seu som é Olinda (terra natal) e São Paulo (cidade que te abduziu). Hoje em dia qual das duas te impulsiona mais a criar?

(Lulina) - São Paulo, sem dúvida, porque é onde vivo e onde as coisas acontecem comigo, as coisas que me levam a refletir, contestar, me aperriar e a compor, hoje em dia.


02 - Suas canções são claramente autobiográgicas. Na sua infância jogando playmobil, as bolhas na pleura (doença real), sua avó, as gírias paulistanas entrando na sua vida. Em algum ponto compor como se fosse um diário da sua própria vida lhe causou algum problema, constrangimento ou fato curioso que possa nos contar?

(Lulina) - Até agora não causou nenhum constrangimento, mas me fez por muitos anos esconder esses disquinhos, justamente porque eu não queria me expor tanto (e não achava que pessoas além dos meus amigos se interessariam por isso). Foi muito aos poucos, quando me mudei para São Paulo, que comecei a perder a timidez, quando percebi que várias pessoas estavam interessadas em ouvir e me pediam para colocar na internet. Mesmo sendo muito autobiográfico, uma tática que uso para não me expor tanto na hora de compor é abusar de metáforas, ironias e de ficção científica. Minhas histórias reais estão misturadas com ficção, escondo em minhocas as minhas nóias com morte, tento tirar algum proveito das desgraças transformando-as em músicas às vezes até engraçadas, acho que esse é meu jeito de digerir o mundo.

03 - Luciana Lins, mais conhecida como Lulina, tem jeito de criaça, fala de sangue de et's, solta palavrões no meio da música, usa versos ácidos brincando, voz de sussurro, um pouco sonolenta,sotaque gostoso. Mas,é comparada com Fernanda Takai (vocalista do Pato Fu) por muitos na internet. Como lida com isso? E com quais outros ícones gostaria de ser lembrada pra inflar seu ego ou seu sorriso?

(Lulina) - A comparação com Fernanda Takai é normal, porque ela foi a única cantora com voz mais suave que estourou para a massa brasileira nos últimos anos. Todas as outras cantam com aquele mesmo estilo mais vozeirão. Já estou acostumada a essa comparação, tanto que no primeiro disco caseiro que eu gravei, em 2001, tiro um sarro disso: imito ela cantando, como se ela estivesse fazendo uma participação especial no meu disco. Mas a comparação com qualquer cantora vem muito mais das referências de cada um. Já fui comparada à Nara Leão (pelos que gostam de bossa e samba), já fui comparada à Frances McKee do Vaselines (pelos indies), à Rita Lee por causa da ironia, enfim, cada um compara com as referências que tem. Eu acho engraçado a mania do ser humano de classificar tudo ao redor, de catalogar o que existe, como se algo não pudesse existir sozinho. Acho que é um jeito que a turma encontra de se sentir confortável, em terreno seguro, associando tudo o que já existe para organizar melhor na cabeça. Eu não me incomodo com nenhuma comparação, para mim isso é elogio.

04 - Sua carreira começou com muitos EP'S (nove pra ser mais exata), feitos na sua casa, de forma bem artesanal. Sabemos que seu CD Cristalina tem esse nome exatamente por ser feito de forma mais "limpa" onde sua voz aparece melhor, sem os ruídos da forma caseira, do cachorro latindo e a vizinha tocando a campainha. Como tem sido a recepção do público? Ele tem crescido após o nascimento do CD? Ou simplesmente ter parido esse trabalho já lhe basta?

(Lulina) - A recepção foi muito melhor do que eu podia imaginar. Cristalina é um lançamento independente, por isso eu esperava muito pouco, já estava contente com a alegria de colocar um filho no mundo. Aí, vem um monte de crítica elogiando em várias revistas e jornais bacanas, gente que eu admiro elogiando, e isso me deixou feliz da vida. O público vem crescendo, o disco tem se espalhado pela internet, dois meses após o lançamento já tinhamos vendido 700 cópias e agora está esgotado, estamos prensando mais 1000. Cada vez mais surgem convites para shows em lugares legais, lotamos o Sesc Vila Mariana, enchemos o Sesc Pompéia, então eu acho que tem mais gente diferente querendo conhecer o som, o que é muito bom. Tô feliz demais com essa surpresa.

05 - Compositora compulsiva, alguns trabalhos com nomes improváveis, pessoas "comuns" até. Quais nomes gostaria de incluir nessa lista? (pode ser vivo ou morto, pode ser quem quiser, pode delirar)

(Lulina) - Eu não entendi direito essa pergunta, mas li a palavra “delirar”, então vou responder delirando. Vou responder com uma lista das pessoas e coisas que eu mais agradeço a Deus por existirem nesse mundo: Tom Zé, Lou Reed, minha família, He-man, Dostoievski, meus amigos, cervejinha, pão com manteiga, feriados, cama.

06 - Está soltando seu som fora do país, já. Quais seus planos futuros, mais concretos e bizarros, ousados e simples?

(Lulina) - Não faço planos com música. Vou me deixando levar. O que pintar de oportunidade (como foi nessa turnê recente pelos EUA, por exemplo), a gente agarra.

07 - Tudo te influencia nas suas letras, das coisinhas mais simples e delicadas (infância, bebidas, príncipes,criações de michocas, margarida) e as mais ácidas e toscas (et's, palavrões,pleura,fixação pelo 13). Então diga 13 coisas que te impulsionam mais a escrever, cantar ou continuar sendo a Lulina.

(Lulina) - Vou resumir as 13 em uma: a vida, desgraçada ou feliz. É o que se vive fora e dentro da cabeça que cria em mim essa necessidade de compor, seja para tentar entender as coisas, para celebrar, ou para não chorar.

08 - Sua música se espalhou de uma forma independente (apesar de ter seu primeiro disco de uma gravadora e talz). O cenário musical independente vem crescendo de forma monstruosa e surpreendente. Quais nomes você aprecia ou convive mais desse cenário? Quais ainda não gravou, mas pretende ou gostaria?

(Lulina) - Tem muita gente boa na música brasileira independente . Eu fico empolgada demais com a cena. Tem Cidadão Instigado (a banda que eu mais indiquei com orgulho para os gringos, quando estive em turnê nos EUA esse ano), Romulo Fróes (que além de grande compositor e cantor, é um dos caras mais dedicados a movimentar a cena, a fazer a coisa virar), Marcelo Jeneci (que está para lançar disco esse ano e que eu já tenho certeza que vai ser um dos melhores de 2010), Tulipa Ruiz (uma das vozes femininas com mais personalidade da cena atual, uma coisa linda), Karina Burh (disco fodão lançado recentemente), Bruno Morais (o menino poesia), Nina Becker (que tá para lançar disco duplo), Lucas Santtana, Isaar, Pullovers, Stela Campos , Tiê, Thiago Pethit, Wado, eu posso ficar a tarde toda listando e parece que isso não vai acabar nunca. É tanta gente boa que não existe mais essa coisa de 2 ou 3 ídolos/ícones na música. Tem espaço para todo mundo e todo mundo se ajuda. Dividimos músicos, dividimos palco e público, inventamos de compor juntos em mesas de bar. Muitos dessa lista eu convivo ou troco idéia de vez em quando, outros eu nem conheço pessoalmente, mas admiro muito. Torço para a coisa virar.

09 - Em que parte a Luciana (que trabalha com propaganda e mora em Sampa) interfere na vida, nas idéias e nos anseios da Lulina que vive na Lulilândia?

(Lulina) - Luciana interfere o tempo todo na vida de Lulina, principalmente quando tem passagem de som às 17h e ela não pode comparecer por causa do trabalho. Ao mesmo tempo que ela atrapalha, com sua rotina, a vida de Lulina, é também sua musa inspiradora, já que é dos aperreios e alegrias de Luciana que a Lulina tira seus temas para compor. Tô me sentindo um jogador de futebol falando assim, mas tá valendo.

10 - Por que a necessidade e/ou vontade de ser Lulina? De onde e como surgiu a cantora e compositora?

(Lulina) - Comecei a compor com uns 15 anos, mas só lá para os 22 eu arrisquei gravar disquinhos em casa e mostrar isso para os amigos. Tudo surgiu muito por acaso, por diversão. E acabei tomando gosto pela coisa e ela foi crescendo em importância na minha vida, a medida que os problemas ficaram maiores e minha necessidade de compor e sublimar sentimentos também. Já tive fases de só escrever, ou de só desenhar, sem compor. Respeito essas fases e vou fazendo o que curto no momento.




http://www.lastfm.com.br/music/Lulina
http://www.myspace.com/lulina
http://lulilandia.wordpress.com/
http://tramavirtual.uol.com.br/lulina
http://www.lulilandia.com.br/
http://lulina.blogspot.com/

Dá pra conhecer o trabalho dela de cabo a rabo. Obrigada Lulina pela simpatia e pelo som. Fiquei muito feliz em poder trazer seu trabalho pro nosso Varal.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Paladar




Esses dias assisti o filme Estômago (nacional) de Marcos Jorge. Um ótimo filme, ótimo mesmo. Um dos melhores filmes do cinema nacional dessa nova leva. Ponto certo, ótimas falas, roteiro interessante e o João Miguel (ator principal) me surpreendeu. Recomendo sem pensar duas vezes. Mas, comecei esse post com o intuito de esmiuçar um sentido extremamente sensual e que no Cinema toma uma visão interessante: o paladar. Em Estômago eles desvendam esse sentido com um toque bem brasileiro. Começa com uma coxinha de buteco e termina com uma macorranada à putanesca. Não vou entrar em grandes detalhes pra não estragar a história. Realmente vale a pena assistir. As cenas onde o paladar é explorado me lembrou uma cena impecável do filme O escafandro e a borboleta. Onde o personagem principal tece uma cena onde na frente dele há uma mesa repleta de comida, devora o banquete com sua amada, comendo assim, com as mãos. Os fresquinhos podem achar nojento, mas é uma cena de uma sensualidade extrema, humana, foraz. Comer é um ato de reunião, compartilhar e ,nesses casos, seduzir.
Recomendo os filmes e aviso que no final dá vontade de comer um bom prato de macarrão à putanesca.




A cena do banquete em O escafandro e a borboleta

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Validuaté


Dia desses, numa conversa descontraída de MSN me mandaram sem grandes detalhes o CD dessa banda e simplesmente disseram: "acho que faz seu estilo". Meio intrigado com o nome, assim que o CD chegou eu fui ouvir afoito. Resultado? Paixão à primeira vista! A banda é excelente, com diversar influências muito ricas, uma sonoridade do caralho e as letras são ótimas. É uma banda de indie rock brega regional formada por José Quaresma (voz/gaita), Thiago (pandeiros/cavaquinho), Júnior Caixão e Vazin (guitarras), Wagner (baixo) e John Well (bateria. Começaram sua trajetória com o nome Papel Di Parede, em 1999, tocando em barzinhos da cidade de União, localizada a 60Km de Teresina, com um repertório formado por sucessos da MPB e canções autorais. As letras são divertidas, são sérias também, irônicas, poéticas e falam do amor que desandou, da saudade do amor que partiu...

Eu Só Quero Acabar Com Você
Composição: Thiago E.

Traz uma cachaça pra vê se
Passa a escuridão - porra de vida!
Ah se ele já não me abraça
O peito ga-ga-gueja a raiva doída.
Partiu com aquela pessoa páia! por quê?!
Partiu com uma pessoa mais feia do que eu - enche o copo!
Tomara que sempre chova em todas as tuas festas.
Tomara que tu tropeces em todas as pedras.
Tomara que tu sempre enfrentes filas enormes.
E mesmo morrendo eu não quero mais que tu retornes.
Eu-só-que-ro-a-ca-bar-com-vo-cê.


É a vingança boba que todo mundo deseja, um vingança infantil se não fosse pela cachaça, rs.

Desde Móveis Colonais de Acaju, nos idos 2006 ou 2007, eu não descubro uma banda tão boa no cenário nacional. Vale muito a pena ouvi-los, e tá AQUI o link para download do CD.
Boa degustação a todos!